Poeta Carvalho Neto
De Poesia ninguém morre... se vive!
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A Música Popular Brasileira de Luto... Morre Belchior!

Soube com profunda tristeza, há cerca de 10 minutos atrás, da morte de um dos maiores ícones da MPB... Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, conhecido como Belchior ou para os mais próximos, simplesmente, "Bel".

Cearense de Sobral, Belchior tinha 70 anos. Filho de família enorme (23 irmãos), o jovem artista abandonou o curso de Medicina (5º ano), para fazer Filosofia. Dono de forte e irrequieta personalidade, Belchior, sempre surpreendeu amigos e parentes por tomar decisões que fugia ao convencional.

E, em mais uma decisão incomum em sua vida, se auto-exilou, em 2007. Inicialmente, em uma pequena cidade balneária, localizada no Uruguai. Posteriormente, visto perambulando em ruas e viadutos da capital gaúcha. Reconhecido por um fã, hospedou-se gratuitamente num apartamento, durante alguns meses. Depois, voluntariamente desapareceu. Estava em companhia de uma mulher identificada pelo nome de Edna Prometheu, por quem supostamente se apaixonara: essa, conhecida no meio artístico por ser antiga produtora musical.

Sua última aparição pública foi num show de Tom Zé. Estando na platéia e reconhecido pelo artista baiano, é convidado a subir ao palco. Deu uma palinha, com Tom Zé, em duas de suas músicas.

Havia deixado tudo para trás (família, imóveis, contratos para shows, dívidas...), inclusive dois carros em estacionamento de hotel. Abandonou shows já agendados, tendo sido processado por seu empresário pelo descumprimento. Assim, também foi processado por duas ex-mulheres, em função do não pagamento de pensões alimentícias.

Em seu atelier, dentre outros objetos pessoais, encontrados pinturas de sua autoria e rascunhos de letras de músicas inéditas e inacabadas.

Foi o maior e mais importante letrista de sua geração, lançando discos antológicos como "Alucinação", "Coração Selvagem" e tantos outros, ao longo de extensa carreira. Cantava o cotidiano da sociedade burguesa com tintas melancólicas, adornadas com indisfarçável e fina ironia... "Eu quero que esse canto torto corte a carne de vocês" ou o "Novo sempre vem" ou "Amar e mudar as coisas me interessa mais", numa mensagem transformadora.

Suas letras denotam profundo conhecimento da sociedade em que vivia... e, ao mesmo tempo, de inconformismo com suas distorções. Tinha uma visão transformista do mundo... e se espelhava em filósofos contemporâneos e em em agitadores culturais como John Lennon e Bob Dylan.

Deixou uma constelação imensa de belíssimas canções, verdadeiros clássicos que embalaram inúmeras gerações: Apenas um Rapaz Latino-Americano, Todo Sujo de Batom, Tudo Outra Vez,Velha Roupa Colorida, Como Nossos Pais, Alucinação, Comentários à Respeito de John, Hora do Almoço, Sujeito de Sorte, Conheço o Meu Lugar, Mucuripe, A Palo Seco, Fotografia 3 x 4, Saia do Meu caminho, Brasileiramente Linda, Coração Selvagem, Paralelas, Divina Comédia Humana, Medo de Avião, Galos Noites e Quintais, Pequeno Perfil de um Cidadão Comum...

A letra de "Galos, Noites e Quintais", por sinal, foi feita em Teresina, quando fazia show e estava hospedado no antigo Hotel Piauí, defronte ao Parque da Bandeira. Outra ligação com o Piauí foi através da grande amizade com Jorge Melo, artista natural de Piripiri, de quem foi sócio e parceiro em algumas canções.

Em 1996, juntamente com alguns alunos da UESPI, tive o privilégio de trazê-lo para fazer dois belíssimos shows em Teresina. Andei com ele em rádios e emissoras de TV, além de bares e restaurantes. Levei-o a minha casa para conhecer minha mãe e meu pai.

Fiquei mais encantado, ainda, com a sua poesia e inteligência em longas e memoráveis conversas. Lembro de, dirigindo meu carro, ouvi-lo declamar de improviso poesias do piauiense Da Costa e Silva, de quem Belchior confessou ser um apaixonado. Falou-me ser fã incondicional de Raul Seixas, John Lennon, Bob Dylan e da perspectiva de se candidatar, com Gilberto Gil, a deputado federal por São Paulo, pelo recém instalado Partido Verde, com objetivo de engrossar uma bancada voltada para a defesa de interesses ecológicos.

Meu último contato pessoal com Belchior foi em Belo Horizonte, em 1998, quando fui assisti-lo na boite "Olímpia", a melhor da época (depois transformada num templo da Igreja Universal do Reino de Deus).

Ao visitá-lo no camarim, Belchior estava com seu inseparável cachimbo (marca sua, juntamente com seus longos bigodes, que lhe cobriam inteiramente a parte superior dos lábios). Tomamos vinho e revivemos situações passadas em Teresina. Após, (com alguns amigos que me acompanhavam) fomos convidados para uma esticada na madrugada da capital mineira. Aceitamos voltar para o show da noite seguinte, quando, gentilmente concedeu cortesia de mesa para 4 pessoas. E o fizemos: tivemos nova rodada de alegres conversas.

Essa breve convivência com um ídolo me deixou marcas profundas e muito aprendizado... uma frase que Belchior usava muito aos se referir as suas canções ou a de outros colegas da MPB: "A palavra cantada da música brasileira", hoje não me sai da cabeça.

E o que falar mais de sua arte? As letras de rara beleza e grande sensibilidade poética o transformaram rapidamente em um dos monstros consagrados e idolatrados, entre os artistas do final do século passado. Foi gravado por muita gente do primeiro time da MPB, como: Roberto Carlos, Elis Regina, Jair Rodrigues, Vanusa, Fagner, Pato Fu, Titãs, Mílton Nascimento e tantos outros.

Antes do seu desaparecimento, musicou parte da obra de Carlos Drumond de Andrade e realizou trabalhos de pintura... outra de suas paixões.

Para mim, realmente, Belchior "É e Será sempre um grande ídolo e a minha maior referência musical... de longe o maior letrista brasileiro de todos os tempos"... o que mais me encantou, ao lado de Raul Seixas... e dos estrangeiros John Lennon e Bob Dylan... coincidentemente, também, referências para o próprio Belchior.

Hoje, num outro plano de vida, habita Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes... fica, neste aqui, o legado do mais talentoso artista brasileiro de sua geração... "O rapaz Latino Americano, sem dinheiro no banco... e vindo do interior". Foi-se um irrequieto cronista de seu tempo... restou um mito do tamanho de sua obra e genialidade.

Não sou vidente, mas, ultimamente estava pensando muito nele... com receio de notícia como essa. Cheguei a comentar com amigos que gostaria de fazer um texto sobre ele... não dessa maneira... de despedida.

Valeu demais... Descanse em paz "Bel"... e encante o céu com sua poesia!

PS: para elaborar este post, não fiz nenhuma pesquisa recente sobre a vida e a obra de Belchior... todo o texto foi construído com a visão e as informações que eu já dispunha anteriormente. Mas, futuramente, talvez consiga fazer algo a altura do que ele representa para mim!
Poeta Carvalho Neto
Enviado por Poeta Carvalho Neto em 15/05/2017
Alterado em 15/05/2017
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