Antônio Carvalho Neto
De Poesia ninguém morre... se vive!
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Textos


 
Meu Pai tinha a solução para os problemas do Brasil!

Nesses tempos em que Michel Temer e seus apaniguados apontam os funcionários públicos como vilões e a causa maior da desestabilização das contas públicas... e de tantos outros males, lembrei-me de meu saudoso pai e da sua receita para melhorar o país.


O Brasil é singular, com particularidades interessantes sob diversos aspectos. Apresenta um processo de industrialização relativamente avançado: fabricamos navios, aviões, automóveis, eletrodomésticos e, até maquinário pesado.

A indústria farmacológica, por exemplo, vem se sofisticando mais e mais, desde a instalação do Instituto Butantã (São Paulo), no longínquo 1901, criado inicialmente com o fito de combater um surto da peste bubônica.

Somos capazes de construir viadutos e pontes espetaculares, inclusive, adentrando milhares de quilômetros sobre o mar, como a mundialmente famosa Rio-Niterói.

Temos um número de instituições de ensino superior (IES) razoavelmente grande, comparando-se com os demais países latino-americanos. Embora, muitas dessas não tenham qualidade e nem capacitem adequadamente profissionais para serem competitivos no mercado de trabalho.

Mas, destarte todo o crescimento econômico do Brasil, verificado nos últimos 50 anos, sua Balança Comercial continua alicerçada em commodities minerais e agrícolas (soja, minério de ferro, petróleo, frango, café, etc). Produtos primários que têm enorme variação de preço no mercado internacional.

Isso representa aproximadamente 65% da pauta de exportação do país, segundo levantamento realizado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), no ano de 2014.

Historicamente, nossa Balança de Serviços é deficitária, visto que o país tem que remunerar outros pela utilização da tecnologia importada (royalties) – quantia paga pelo direito de uso de invenções e inovações criadas por empresas multinacionais.

E, para contrapor essa situação desfavorável, em tempos de globalização, as políticas públicas econômicas estimulam a indústria do carnaval e do turismo.

Além do mais, o futebol ocupa generoso espaço contribuindo para a entrada de divisas, ainda que os números sejam imprecisos e ocorra evasão de receitas, pela própria incapacidade dos órgãos públicos competentes para essa finalidade.

Apesar do avanço econômico verificado no país, desde o Plano de Metas do Governo Juscelino Kubitsckek, o desenvolvimento social não ocorreu como esperado.

A guisa de exemplificação da situação social, dados divulgados pela ONU (2010), denotam que o Brasil apresentou IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de 0,699. Apenas o 73° lugar no ranking mundial. Isso revela que as condições de vida de grande parte dos brasileiros estão abaixo dos padrões mínimos aceitáveis pela ONU.

Como incrementar a receita do Brasil? O que mais o país poderia exportar para ter divisas, com objetivo de fazer investimentos voltados para melhorar as necessidades básicas de sua população? Essa é tarefa que muitos economistas e estrategistas governamentais, especializados na área de comércio exterior, vêm se debruçando há anos.

No entanto, creio que tenho uma solução para o problema. É exportar algo que o Brasil tem “expertise” como nenhum outro concorrente. E quem me ensinou "o caminho das pedras" foi meu saudoso pai. Homem que nunca na vida abriu um livro de economia, mas, era dotado de uma sabedoria inconteste.

Nessa época, ele estava com, aproximadamente, 80 anos. E, lidava com muitas limitações de locomoção, por conta de um Acidente Vascular Cerebral (AVC).  Caminhava bem devagarinho. No entanto, tinha uma lucidez absurda e uma inteligência maior ainda.

Seu programa favorito era passear na praça de alimentação do “Teresina Shopping”, conversar um pouquinho sobre as muitas aventuras amorosas vividas e comer gostosos “bolinhos de bacalhau”.

Certa noite, ao sair de uma aula na faculdade em que leciono, fui me encontrar com ele e sua acompanhante, no referido shopping.

Ele era maravilhoso em quaisquer circunstâncias, mas, quando estava em alto astral, não tinha para ninguém. Divertido, espirituoso, moleque... no bom sentido. Tinha uma  sabedoria de vida, como poucos. Suas tiradas eram realmente impagáveis. 

Assim, que o vi... percebi que estava muitíssimo bem-humorado. Sentei-me à mesa e passamos a conversar.

Sorrindo muito, me disse: “Filho... só está faltando uma caneca de chopp gelada e dois pratinhos de bolinhos de bacalhau!”. Sorri, pois a bebida alcoólica lhe era proibida... os bolinhos, eu iria providenciar imediatamente.

Dirigi-me à choperia que ficava próxima ao lugar em que estávamos. Logo, percebi uma fila razoavelmente grande. Talvez, umas 15 a 20 pessoas esperando para fazer o pagamento no caixa e solicitar alguma guloseima ou bebidas, ao balcão.

Eu era o último, no momento em que chegou uma jovem senhora. Distraído, tomei um susto, quando a ouvi dando “boa noite”.

Olhei-a com certa curiosidade. Vi que era muito nova... calculei uns 25 anos... loira, olhos azuis, um sorriso enigmático nos lábios... e uma barriga enorme, orgulhosamente exposta por uma espécie de blusa que apenas lhe cobria parte dos seios.

Supus que estivesse com gravidez avançada, embora, não seja um especialista sobre a matéria em questão.

Sensibilizado pelo seu aparente estado físico, imediatamente, tomei a iniciativa de lhe ceder minha vaga. Intencionalmente, o fiz em voz alta. E, sem nenhuma surpresa, todos adotaram o mesmo procedimento. Resultado: a noviça mamãe logo estava fazendo seu pedido, junto ao caixa.

E... ficamos atônitos, quando, com uma voz suave e sensual, a loira disse em tom bastante audível e seguro: “Dois chopps geladíssimos... e um tira-gosto de filé com fritas... os chopps levo agora... pois, eu e meu marido estamos com uma sede danada... já o filé, o garçom leva quando estiver no ponto!”.

Em seguida, ela saiu tranquilamente andando em direção a sua mesa, a uns 10 metros de distância. Um cara barbado a aguardava com um largo sorriso. Mais ou menos próximo ao lugar em que estava meu pai.

Estávamos todos ensimesmados com aquela cena inusitada. Esperei minha vez, fiz o pedido, paguei a conta e voltei para a mesa em que estava meu pai. Não, sem antes ouvir muitos impropérios e reclamações das pessoas que estavam na fila... boquiabertos com a desenvoltura estratégica da loira grávida.

Chegando à mesa, contei a história que havia presenciado na fila. E, com um discreto aceno de cabeça, apontei para a moça grávida tomando chopp, alegremente, com seu companheiro. Realmente eu estava indignado com “tamanha cara-de-pau” do casal.

Meu pai parou de sorrir. Com voz grave e arrastada, disse: “Meu filho... aquela jovem que você se refere é filha de um dos homens mais ricos do Piauí... ele não tem sequer o segundo grau de estudo. Mas, tem patrimônio de fazer inveja a homens de posse nesse país!”.

Fiquei observando sua fala: “Você, meu filho, estudou muito... tem vários cursos, fez mestrado e logrou êxito em concursos públicos..., mas, vai ser sempre um funcionário público. Não passará de um funcionário público, embora eu tenha muito orgulho de você!”.

Acenei afirmativamente com a cabeça e ele seguiu com seus ensinamentos: “Você é especialista em tudo o que não dá dinheiro... ativista do meio ambiente, gosta de ler e escrever... Já o pai daquela moça é “sabido” ... e tudo o que faz é para ganhar dinheiro, mesmo que seja de maneira “suja” ... Ela só está fazendo, na rua, o que aprendeu em casa. E, neste país em que vivemos, só se dá bem quem é malandro e utiliza a Lei de Gérson”.

Depois, levantou-se da cadeira com alguma dificuldade. Caminhou vagarosamente até onde eu estava e concluiu solenemente: “Se o Brasil um dia exportasse estratégias de malandragem... seria o país mais rico do mundo... disparado!”.



 
Post Scriptum



A "Lei de Gérson" é uma maneira de se dizer popularmente que o brasileiro é espertalhão e se sai bem em quaisquer situações.

Gérson Oliveira, o "Canhotinha de Ouro", que empresta seu nome à famiregada lei, é um ex-jogador de futebol, com passagens por vários grandes clubes brasileiros e momentos marcantes com a camisa da Seleção Brasileira, sendo considerado o "cérebro" da conquista da Copa do Mundo de 1970, no México.

Gérson, um fumante inveterado, mesmo na época em que era jogador, foi considerado por muitos como um típico carioca, esperto, inteligente e adepto da malandragem. Por conta dessa característica, durante algum tempo, se tornou garoto-propaganda de uma marca de cigarro. Com seu "carioquês" característico, dizia alegremente o seguinte bordão: "Brasileiro gosta de levar vantagem em tudo... certo? Eu também... por isso só uso Vila Rica!".  
 
 

 
Antônio Carvalho Neto
Enviado por Antônio Carvalho Neto em 28/01/2018
Alterado em 30/01/2018
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