Antônio Carvalho Neto
De Poesia ninguém morre... se vive!
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Textos




Sabe nadar... senhor?

 
 
Tenho um casal de filhos maravilhosos (ela, 21 anos; ele, 13). Para satisfazê-los, creio ser capaz de fazer muitas coisas que fogem à normalidade, inclusive vencer o medo pessoal diante de aventuras mais radicais.

Ilustrando esse sentimento de amor e despojamento, contarei um fato ocorrido há uns sete anos, mas, que nunca me sai do pensamento... e, provavelmente, carregarei comigo enquanto vida e consciência tiver.

Nessa época, como é de praxe com as famílias, procurávamos conciliar as férias de trabalho com as escolares dos filhos. E, isso sempre ocorria nos últimos quinze dias do mês de julho.

Como não somos muito criativos para o lado do turismo, por três ou quatro anos consecutivos, escolhíamos a cidade de Fortaleza... Inicialmente, por ser relativamente perto de Teresina (700 km). E, também, pelas belas e aconchegantes praias; quantidade de bons restaurantes com comidas típicas; por andar a pé, gostosamente, na feirinha artesanal que se localiza na praia de Iracema; pelos passeios de trenzinho na orla marítima e de bugre na praia do Cumbuco... e, ainda, de uma forma toda especial, pelo espetacular “Beach Park”.

A ida ao “Beach Park”, sempre, foi um dos pontos altos nos nossos momentos na capital alencarina. Gasta-se, de carro, cerca de uma hora ou até um pouco mais... quando, ocorrem engarrafamentos.

O tráfego é intenso nos fins de semana e nos feriados. Assim, sempre preferimos ir durante os dias intermediários: a pista geralmente é mais livre. De qualquer forma, sempre compensa visitar o "Beach Park" em quaisquer ocasiões... "um dos melhores parques aquáticos da América Latina", dizem orgulhosos os cearenses. 

Ficava feito criança, divertindo-me com os filhos, em cada brinquedo com o qual nos deparávamos. Alguns são bem simples, voltados mesmo para crianças menores. Outros, proporcionam mais emoções, envolvendo sensação de perigo...

Lá, íamos a todos: era uma alegria e tanto. Mas, existia uma exceção... o “Insano”: um toboágua com 41 metros de altura. Estrutura correspondente a um prédio de 14 andares, segundo li em algum lugar...

No Insano, o corpo humano em queda livre pode se projetar a 105 km/h, percorrendo 41 metros, em apenas 5 segundos. É um teste para cardíacos e medrosos (sou os dois!). 


Para se ter uma ideia de sua altura e grandeza, na estrada que leva ao distrito de Aquiraz (onde se localiza), a mais de 01 quilômetro de distância já é bem visível. Conquanto não se tenha informações da ocorrência de qualquer acidente grave naquele aparelho, dá medo enfrentá-lo de peito aberto.

Como descrito anteriormente, na primeira vez que fomos por lá, percorremos todos os demais brinquedos... à exceção do dito-cujo. Lembro-me que, de volta ao hotel, minha filha fez o seguinte comentário: “Pai adorei tudo... só não foi melhor porque não descemos no Insano”.

Cheio de coragem e energia, imediatamente, falei: “Filha, nem se preocupe... ano que vem viremos novamente e irei com você... vamos descê-lo diversas vezes”. Ela me olhou rapidamente... “Tá bom!”. Logo esqueci da promessa. Ela, infelizmente, não!

O ano passou rapidamente. Estávamos (eu a esposa e os dois filhos) na frente da bilheteria do "Beach Park". Absorto, olhava tudo embevecido... quando, ouvi sua voz delicada: “Pai... não se esqueça daquela promessa!”


“Qual mesmo?”, perguntei-lhe desconfiado de que viria uma bomba para cima de mim. 

“Pai... ano passado, você me prometeu que, dessa vez, iríamos no Insano... lembra?”, disse enfática e decidida.

Não deixei por menos: “Tá bom ... se você não tiver medo, vamos sim!”. Torci para que depois ela esquecesse minha bravata.

A manhã se passou rápida. Era uma alegria geral. Brincamos a valer em quase todos os brinquedos. Por volta das 14 h, cansados, fomos almoçar. No caminho do restaurante, minha filha me lembrou novamente: “Pai... e o Insano?”.

“Meu bem, vamos almoçar logo... né?”. Levantei os polegares, fazendo gestos de que iríamos mais tarde. Na verdade, sem muita convicção, era uma promessa... apenas, mais uma promessa. Creio que, naquele instante, eu pensava exatamente o contrário.

Terminada a refeição, ela voltou a carga: “Pai... e aí? Vamos lá?”. Tentei argumentar que estava de barriga cheia. Disse que seria bom um "tempinho" para descansar, mas, não colou ... Lá fomos nós dois: era o “meu dever de pai” falando mais alto que o medo de enfrentar aquela coisa “insana”. 

Amigos ... subir aquela escada de madeira é desesperador! Não é mole mesmo! Você vai subindo e olhando para as pessoas, lá embaixo, diminuindo de tamanho... e, cada vez mais longe. Conselho: “melhor não olhar!”

Para completar o quadro de terror, um alto-falante não para de lhe encher o saco. Num volume topado, uma voz gutural, debochada, fica repetindo o tempo todo: “há... há ... há... desista se for medroso... se for cardíaco  e se tem amor a vida!”. Se não exatamente desse jeito, é bem parecido (garanto!).

À medida que subíamos, eu tentava desencorajar minha filha. Toda vez que ouvia aquela voz medonha, lhe perguntava: “Não quer mesmo desistir?”. E ela sempre negando.

Sabem o que é pior? Repondo: é estar subindo aquela "bendita" escada e ver as pessoas descendo, em sentido contrário, desistindo, aliviadas. Algumas, com caras assustadas, comentando que não tiveram coragem de descer pelo toboágua.

E, quando alcançamos a penúltima plataforma, fiz a última cartada: “Filha... se você quiser desistir, não se preocupe ... não é feio e ninguém saberá ... eu não vou contar!”. Ela apenas sorriu e continuou a subir.

Finalmente, para meu desespero, chegamos à plataforma derradeira. Algumas pessoas se acotovelavam . Talvez, umas 15, esperando criar coragem. Não tinha mais opção: era descer pela rampa ou desistir e tomar o caminho de volta pela escada. 

Olhei para minha filha, esperando um milagre. "Quem sabe ela não desiste no último instante?", pensei desesperado. Isso não aconteceu. Ela apenas disse: “Pai... vai você primeiro... vejo como é e vou depois!”.

Dirigi-me à borda de lançamento da rampa e lá estava um rapaz vestido num calção azul e camisa branca, com a inscrição “Salva-vidas”. Ao me aproximar, o tal fulano me fez a pergunta mais idiota que já ouvi em minha existência: “Sabe nadar... senhor?”

Com um olhar carregado, fuzilei aquele rapazinho petulante. Naquele instante, tive vontade de esganá-lo. Eu... ali, me borrando de medo da altura do "bicho" e o cabra vem me perguntar se eu sabia nadar? No mínimo era uma "piada de mau gosto". Ele queria era me sacanear... tenho certeza!

Mesmo com toda a indignação por aquela disparatada pergunta, com medo de alguém ouvir, respondi baixinho: “Nadar eu sei ... não sei é voar!”.

Fechei os olhos e continuei a minha desventura em direção à rampa. Recebi instrução de me manter com as pernas cruzadas e os braços por trás da cabeça, tampando os ouvidos, com os dedos entrelaçados entre as mãos. E fui...

Como a plataforma é uma espécie de “L” investido, com a base menor na saída, senti o corpo se descolando na curva. Sei lá quanto tempo durou essa aflição... Quando dei por mim, estava entrando na água do tanque de recepção, em solo. Sinceramente, meu coração queria sacar pela boca. O short de banho parecia que ia sair pelo pescoço. Tudo isso em frações de segundo.

Tenho poucos cabelos na cabeça e muitos pelos no corpo. Mas, a sensação é de que estavam todos em pé. Fui logo orientado a sair da "piscininha", pois outra pessoa iria descer em instantes. E... era exatamente minha filha. Vi seu corpinho esguio se projetar na plataforma. Logo também estava na água.

Entrei novamente na piscina, dando-lhe um forte abraço e um beijo efusivo. Olhei bem seus olhos e percebi sua fisionomia alterada pela adrenalina. Disse aliviado: “Filha ... jamais duvide de meu amor por ti!”.

Na viagem de volta à Teresina, dirigindo o carro, ao longo de quase todo o percurso, uma voz sarcática não me saia da cabeça: “Sabe nadar... senhor?”. Vai tomar no ... !!!


 
Post Scriptum

 
Ser pai foi o presente mais maravilhoso que recebi de Deus. Nada se compara, nada me dá mais prazer. Mas, tem situações que não basta compartilharmos... temos que participar. 

A crônica é dedicada a minha filha, Anabela, protagonista da narrativa... Ela, com a ansiedade juvenil em "viver" aventuras radicais, fez-me passar por toda essa "saia justa".



 
Antônio Carvalho Neto
Enviado por Antônio Carvalho Neto em 02/02/2018
Alterado em 27/04/2018
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