Antônio Carvalho Neto
De Poesia ninguém morre... se vive!
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Textos


 
MELHOR LER A BULA!


 
Existem momentos em que as coisas não dão certo e acreditamos que "Deus" não nos acolheu entre seus favoritos: os infortúnios são evidentes e contínuos.

Nesses momentos, lembro-me muito de Carlos Drummond de Andrade e do seu famoso "Poema de Sete Faces"... e, por me identificar sobejamente com elas, cito duas estrofes:

 
"Quando nasci, um anjo torto 
desses que vivem na sombra 
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.


Meu Deus, por que me abandonaste 
se sabias que eu não era Deus 
se sabias que eu era fraco"
 
Confesso que já dei tamanhas cabeçadas e entrei em tantas "saias justas", que esse poema de Drummond, passou a ser uma das grandes referências literárias que tenho. Vejo-o como um mantra. E haja tropeços e quedas!
 
Assim, vou narrar fidedignamente uma sucessão de fatos que me aconteceram há anos... muitos anos. No entanto, nunca me saíram da cabeça. Vejam se não tenho razão!

Era estudante de economia em Recife, no início dos anos 80. Muito dedicado e estudioso, modéstia à parte, até porque, morando fora da casa dos meus pais, não tinha opções de lazer... e nem dinheiro para diversões.

Nessa época, com 20 anos, raramente conseguia vencer a excessiva timidez que me acompanhava por toda a vida. Contudo, por ser o caçula da turma e pelas “notas” obtidas nas disciplinas mais complicadas, tinha um certo prestígio com os colegas.

Por isso, não fiquei surpreso, quando recebi o convite de uma amiga para passar o fim-de-semana em seu apartamento. Tínhamos que fazer um trabalho, em dupla, cuja apresentação seria exatamente na segunda-feira seguinte.

Pensei em recusar, pois, nunca gostei de “casa alheia” ... como se diz em minha terra. Mas, os argumentos utilizados por Mariinha foram fortes. Irresistíveis: em seu apartamento teríamos melhor alimentação, conforto e... condicionador de ar. Naquela época, estava fazendo um calor brabo na capital pernambucana. Mesmo para um piauiense nascido na abrasiva Teresina.

Outro detalhe importante me impediu de dizer “não” à Mariinha: apesar do diminutivo carinhoso com o qual todos nós nos dirigíamos a ela, a menina tinha mais de 1,80m... era nascida em Serra Talhada, terra de Lampião. E, parece que herdara toda a zanga do “Rei do Cangaço”.  

Eu, por acaso, já tinha assistido uma discussão entre ela e um professor de matemática financeira. Fiquei com pena do "azarado" mestre. Mariinha não economizou nos adjetivos e a mãe do “teacher” foi devidamente homenageada. Juro que pensei naquele instante: "Essa senhora merece ser canonizada!".

Bem... voltando-me à situação de momento, tentei sugerir que cada um fizesse a sua parte. Alguns minutos antes da aula, nos reuniríamos para fazer os ajustes. Para mim, seria o suficiente para nos sairmos satisfatoriamente naquela avaliação.

Sobre a proposta,  Mariinha delicadamente comentou: “Deixa de FRESCURA, Antônio... FAREMOS O TRABALHO EM MEU APARTAMENTO!”. Dito “suavemente" desse jeito, o argumento me convenceu por inteiro.

Infelizmente, amanheci o sábado com a garganta inflamada. Senti logo aquela rouquidão incomodativa. Tive receio. Muito receio. Sempre que estava assim, as crises eram intensas e me deixavam “mole”.

Resolvi ligar para Mariinha. “Não era possível que não entendesse a situação”, pensei em voz alta. Procurei um orelhão que ficava próximo ao apartamento em que morava e lhe comuniquei meu estado febril.

Nem terminei a história e já fui ouvindo: “NÃO SABIA QUE PIAUIENSE ERA FROUXO... E SE BORRAVA NAS CALÇAS POR QUALQUER MERDA... DEIXA DISSO ANTÔNIO... TE ESPERO EM MEIA HORA!”.

Antes do prazo concedido, estava lá. Nem bem cheguei e já recebi uma tarefa urgente: ir à farmácia comprar um absorvente feminino, pois, Mariinha tinha ficado menstruada há poucos instantes. E estava morrendo de "cólica"!

Nunca recebi uma incumbência tão desafiadora na vida. Mas, imaginei, que, indo comprar o “tal absorvente”, traria também o remédio para a garganta.

Lembro de ter dito: “Mariinha... e qual a marca?”. Ela retrucou ao seu modo: “Olha Piauí... quero a porra dum absorvente... me pega um tamanho GG, com aba... fala com as vendedoras, rapaz!”.

Assim, fui para o sacrifício. Aí começou meu suplício! Entrei na farmácia... olhei as atendentes. E cadê a coragem? Observei alguns produtos por conta própria, mas, fiquei em dúvida.

Saí novamente e voltei ao prédio de minha amiga. Como o apartamento era no segundo andar e tinha uma sacadinha externa... gritei com a voz que ainda restava, até que ela apareceu. Lá de cima mesmo perguntou: “Ainda não comprou? Não sabe dizer o que quer? Eita cabra FROUXO!”.

"Puto da Vida" voltei à farmácia. Diante da primeira vendedora que encontrei, fui logo dizendo num fôlego só: “Olha mocinha, quero um absorvente feminino, Tamanho GG, com aba... e não é para mim! Viu?”.

Ela sorriu na minha cara (acreditam?) e disse em tom jocoso: “Imagino que não seja mesmo para o senhor... mas, vou lhe mostrar alguns!”. No caminho, vi uma prateleira com um produto, em cuja embalagem estava escrito “FLOGO-ROSA”.

Lembrei-me que minha mãe sempre prescrevia “FLOGORAL” para gargarejar, quando estava com crise de garganta mais aguda. Certamente aquele "FLOGO-ROSA" teria o mesmo princípio ativo.

Peguei o tal remédio, escolhi um absorvente que achei mais adequado e entreguei ambos à vendedora. Ouvi quando ela desdenhou de forma irônica: “Esse FLOGO-ROSA aqui... também não é para o senhor, suponho!”.

Percebi que aquela vendedora insolente estava mesmo me enchendo o saco. Respondi-lhe na lata: “Claro que é... estou muito precisado mesmo... ora bolas!”. 

Ela pigarreou umas duas vezes. Depois me olhou enigmaticamente e falou: “Imagino o tamanho da sua precisão... tadinho do senhor... tô com dó de verdade, pode acreditar!”.

Resmunguei alguma coisa, paguei a conta e logo estava batendo à porta de Mariinha. Ao entrar, entreguei-lhe o absorvente e perguntei onde era o banheiro.

Timidamente manifestei o desejo de me refrescar. Pedi-lhe uma toalha. Estava muito suado e com bastante calor. Não via a hora de entrar debaixo do chuveiro e tomar um banho bem demorado. Depois fazer gargarejo e aliviar aquela ardência chata... insistente.

 
Entrei no banheiro e me despi todo. Mas, mudei o planejamento. Decidi inicialmente por fazer a assepsia bucal. Assim, tirei o vidro de "FLOGO-ROSA" da caixa, desatarraxei a tampa e virei generosamente dentro da minha boca... Aliás, enchi-a todinha de uma vez. Comecei a gargarejar. Naquele momento, achei que engoli parte daquele líquido rosado... hoje, tenho certeza disso!

Foi quando senti uma comichão como nunca vira nada igual. Parece que era o “fogo do inferno” que entrara em minha boca e saia pelas narinas, olhos e ouvidos, queimando tudo... a língua, a garganta, a faringe, a laringe, o esôfago... possivelmente, até o reto... Imaginei naquele instante!

Comecei a tossir descontroladamente. Meus olhos se encheram d’água. Tentei dizer algo e nada consegui. Abri a porta e sai apressadamente do jeito que "Deus" me mandou ao mundo, abanando a boca e sentindo quentura que ia diretamente da "boca" até a "porta traseira baixa".

Reuni coragem e, com voz de lixa, sussurrei para Mariinha... “Pelo bem que quer sua mãe, me traz água gelada... gelo se puder... traz o Corpo de Bombeiros também... estou pegando fogo por dentro”.  

Me vendo naquele estado deplorável, ela correu para o banheiro. Voltou com uma toalha na mão direita, que me entregou para cobrir o corpo nu. E, na outra, estava o frasco do abominável “FLOGO-ROSA”.

Olhou-me sarcasticamente e desabou no chão de tanto gargalhar: “Seu louco... Antônio você fez gargarejo com solução vaginal? Vai gostar de xoxota assim lá no Piauí!”.

Simplificando a história... voltei à farmácia para comprar outro remédio e aliviar aquela insuportável queimação. Tive que enfrentar novamente o olhar zombeteiro da vendedora e sua voz intragável... "Senhor... Aquele remédio não deu certo?"

Nada mais de estudo. O mundo que se f... Cheguei ao meu apartamento afônico e maltratado. Passei um dos piores fins de semana na vida. Quanto ao trabalho... que fosse ZERO!

Segunda-feira de manhã, cheguei atrasado na aula... quase não dormira nos dois últimos dias. Estava realmente um trapo, mal da garganta, do intestino, dor no corpo todo... e psicologicamente abalado.

Lembro que, antes de sair do apartamento de Mariinha, peguei uma caneta, um pedaço de papel e lhe escrevi em desespero: “Por favor, apelo para nossa grande amizade. Não conte nada a ninguém na turma!”. Mas... Ao entrar na sala, vi algumas caras irônicas e muitos sorrisinhos debochados. Alguém me fez sinal apontando para o quadro de acrílico... e lá estava escrito:

AVISO. Não haverá aula hoje, o professor está com a garganta inflamada. Informou que virá amanhã, pois, está muito bem medicado. Ele sabe LER BULA.”.
 

 
Post Scriptum


BULA FLOGO-ROSA
 
“Flogo-Rosa é destinado ao tratamento da vulvovaginite aguda (inflamação dos tecidos da vulva e vagina) associada a sintomas de dor, ardor, prurido e corrimento e doença inflamatória do colo do útero de qualquer tipo ou origem; como auxiliar no tratamento de candidíase (um tipo de micose) e tricomoníase (doença sexualmente transmissível causada por um parasita); como preventivo, no pré e pós-operatório de cirurgia vaginal e na higiene íntima do pós-parto. A administração vulvar e vaginal da benzidamina assegura rápido alívio dos sinais e sintomas de vulvovaginite, rápida melhora do inchaço local e atividade antimicrobiana (contra as bactérias) efetiva, preservando a flora vaginal normal e facilitando a restauração da normalidade da vagina”
 
USO TÓPICO, NÃO INGERIR!
 
Antônio Carvalho Neto
Enviado por Antônio Carvalho Neto em 19/02/2018
Alterado em 07/05/2018
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