Antônio Carvalho Neto
De Poesia ninguém morre... se vive!
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Textos




Isso num Vai Ficá só Nisso... Não!

 
Essa é só uma das muitas histórias que presenciei nas minhas férias em Pio IX: “A noite em que Francinete deixou Almizão trancado no quarto!”.

Bem… na verdade, lá no fundo, isso é coisa da minha imaginação e qualquer semelhança com pessoas e fatos narrados neste “Causo”, será simples coincidência.

Francinete, senhora educada, de fino trato, religiosa como poucas, sem chegar a ser uma beata na vida, andava desconfiada das escapadas de seu marido, o fogoso e sestroso “Almizão”.

E, além de seu notório e exagerado ciúme, o culpado disso foi um tal de Dedé Falta D'água, que andou espalhando ter visto um pacote de preservativos usados e uma calcinha suja, pendurados num galho de mangueira, ao passear (clandestinamente) nas terras de Almizão.

Segundo se apurou depois, isso era apenas futrica de Dedé Falta D'água. Mas, Francinete quando ouviu a notícia "pegou corda e soltou fogo pelos ouvidos e narinas", jurando que Almizão pagaria o 'pato', se um dia andasse fora do 'rastro do cavalo'. Não quis nem saber se era verdade o tal falatório.

A notícia se espalhou como rastilho de pólvora. E a fila foi andando, todo mundo desconfiando, até que, interessado em resolver o problema de Almizão, um genro seu, lá das bandas da capital (cabra bom da peste), montou em sua bike e foi ao local averiguar a situação: aí, pelos seus conhecimentos investigatórios, descobriu que Almizão era mesmo inocente, pois, num tinha nada que incriminasse aquele cidadão.

Almizão, em verdade, é gente boa demais: homem disposto, ligeiro, trabalhador, contador de causos e dono de duma pontaria capaz de matar um mosquito a 300 metros de distância, com uma “12”, usando uma mão só. Isso, estando com os dois olhos fechados.

É valente e destemido. Num tem medo de onça, cobra, cachorro, galo, papagaio ou qualquer outro bicho…mas, quando, se fala o nome de Francinete, o cabra "afina a voz e dá o calado por resposta".

Almizão tem um sítio perto da cidade de nome “Baixio da Chuva”, seu paraíso aqui na terra. Dizem, até, que ele gosta mais do local do que da própria mulher, mas, isso é puro despeito dos que num tem o que fazer.

O homem, de fato, acorda antes das galinhas para tirar leite do peito das vacas, todos os dias: seja santo ou feriado, meio de semana, sábado e até domingo.

“É uma coisa de louco… nada e nem ninguém segura Almizão, quando quer ir ao seu sítio!”, fofocam os que o conhecem. Pode ser 5 da manhã, 2 da tarde ou 10 da noite.

Aliás, teve um fato que me mostrou ser isso verdadeiro. Vou narrá-lo inteirinho, a seguir.

Ultimamente a vida de Almizão tinha uma pequena mudança: A tardinha, depois que chegava do sítio, tomava banho, jantava e… levava uma sova de dominó do seu genro. Era sova de um jeito que Almizão saía moído de tanto apanhar.

Chateado, o cabra voltava de noite para o sítio, com a desculpa de espantar uns cachorros, que apareciam por lá pra morder suas ovelhas. E, para sustentar sua história junto à Francinete, se divertia estourando umas bombinhas que menino solta nas festas juninas de São João, do tipo “me engana que eu gosto!”.

Francinete que, desde os tempos de namoro, sempre controlava tudo na vida de Almizão, num estava gostando nada daquelas suas idas para o sítio, tão tarde da noite.

Ela já não gostava de dia, depois que escurecia, então, é que não queria mesmo, pois, quando o amado voltava para casa, já estava dormindo e não sabia a hora da sua chegada.

Aí não dava outra, Francinete passava o dia seguinte de cara fechada, emburrada mesmo. E, como esse rebuliço acontecia em todas as noites, no dia seguinte a mulher endoidecia.

A coisa foi ficando feia porque Francinete se lembrou do 'fuxico' feito pelo tal de Dedé Falta D'água – aquele que espalhou a notícia de que Almizão estava solto na buraqueira, em seu sítio. Assim, já muito enfezada, a mulher resolveu se vingar do marido. E, não é que aconteceu mesmo!

Bem… numa noite em que Almizão levou mais uma varada no dominó de seu inoportuno genro, tudo aconteceu. O "homi" se levantou da mesa zangado. Entrou em seu quarto pra se arrumar, colocando o seu conhecido e inseparável "chapéu de feltro".

Aí, foi nesse momento que Francinete decidiu executar seu plano: fechou a porta, pelo lado de fora, girando a chave na fechadura e deixando Almizão trancado por dentro do quarto.

Quando o cabra foi sair: nada... Batia à porta, gritava cada vez mais alto e… nada. A batida era tão forte e o grito tão alto, que se ouviu lá no abrigo da praça, a uns 500 metros de distância. E, Francinete nada mesmo de abrir a porta. Como se diz por aquelas bandas, fazia “ouvido de môco”.

De repente, pararam as batidas na porta e os gritos de Almizão se calaram de vez. Francinete riu de sua inteligência e vivacidade. Imaginou logo: “hoje ele não sai de noite, nem que a vaca tussa!”.

Mas, num deu nem dez segundos e apareceu Almizão esbaforido na sala. O cabra tinha batido o recorde mundial de 'salto-pela-janela'. Estava com o chapéu nas mãos e… os cabelos em pé. Parecia que tinham sido colados com gomalina, de tão apontados para as telhas.

Aí, num deu outra... Almizão foi logo contando que uma vez, numa situação parecida, brincando de esconde-esconde com o finado Raimundo Tiririca e mais Zezim de Ontõe do Zeca da Buléia, tinham pegado uma aposta para ver quem pulava mais ligeiro uma janela de quase 2 metros de altura.

E, Almizão continuou a narrativa: "primeiro um, depois o outro e quando chegou na sua vez… os cabras ficaram abestalhados de tão ligeiro qu'ele foi".

Francinete endoidou de vez. Como é que tinha se esquecido que a janela não tinha grade? E, ouvindo a gabolice de Almizão contando como tinha sido fácil pular a tal janela, disse baixinho a si mesma: “Destá cabra véio… Isso num vai ficá só nisso não… quero vê tu saí, quand'eu ti trancá dentro da cisterna!”

Bem... não sei o final da história e se Francinete conseguiu mesmo o seu intento, pois, no dia seguinte viajei de volta para minha casa. Infelizmente, minhas férias tinham acabado.



 
Post Scriptum


Publiquei este causo, tão logo entrei no RL. Foi o primeiro de uma série de 3. Como agora pretendo continuar narrando as histórias que presencio em Pio IX (minha cidade de adoção), postei-o novamente. Isso com intuito de "eu" mesmo... "pegá o fio da meada!", como se fala por lá!

Dedico-o ao meu sogro Francisco Irineu Alencar, conhecido como seu "Alci"... sertanejo típico e de grande valor moral, exemplo para todos na cidade.

Meu sogro e o seu sítio foram importantes na composição do cenário e dos personagens dessa história de ficção, que (repito!) não se atém a nenhuma situação verídica. Ademais, os exageros identificados no texto são próprios da linguagem característica dos "causos nordestinos"  

 
À guisa de esclarecimento: "cisterna" é um sistema de armazenagem de água em residências ou sítios, muito utilizado em regiões com escassez de chuvas. Trata-se de cultura milenar de armazenar a água da chuva ou de poço, em uma caixa d`água subterrânea. 


 
Antônio Carvalho Neto
Enviado por Antônio Carvalho Neto em 21/03/2018
Alterado em 27/04/2018
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