Antônio Carvalho Neto
De Poesia ninguém morre... se vive!
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Textos




“Isso Num Vai Ficá só Nisso... Não: a verdade sobre Cunhã e a Onça Pintada!”


Essa é a mais escabrosa das histórias que presenciei em Pio IX. E aconteceu nas últimas férias: “A tarde em que a Onça Pintada azunhou Almizão, depois duma briga feroz com Cunhã”.

Como não faz tanto tempo, lembro tudinho mesmo o que aconteceu com Almizão e os demais personagens desta história.

Assim, contarei “tim-tim por tim-tim”. Juro, até, por nossa Senhora do Despacho Divino, que a narrativa é inteiramente verdadeira. Pelo menos creio nas coisas que assuntei e me deixaram de “cabelo-em-pé”, ainda que pareçam inverossímeis.

A prosa começa quando me deslocava de carro de Teresina rumo à cidade de Pio IX. Diferente de outras ocasiões, minha mulher estava muito calada, taciturna... digo mesmo “sorumbática”.

Economizava as palavras, os sorrisos, os gestos e os movimentos. Parecia distante, muito distante. Nem lembrava aquela tagarela que, de tanto falar, muitas vezes dava cãibra na língua.

Eu... na direção do carro, estava achando a viagem um “porre”... e, para passar o tempo, ouvia músicas variadas, indo do rock pauleira da banda australiana AC/DC, ao brega-chique de sertanejos eletrônicos.

Passeei devagarinho no velho “Fuscão Preto”, do cantor das antigas, Almir Rogério. Acelerei em alta velocidade no fogoso “Camaro Amarelo”, da dupla Mariano e Munhoz... e nada da mulher dar uma palavra. Parecia a múmia paralítica do Agildo Ribeiro no “Planeta dos Homens”, programa humorístico de saudosa memória. Pensei em colocar meu clássico favorito “Dormindo na Praça”... Achei prudente deixar quieto.

Já tínhamos percorrido uns 200 km... e, como não sou monge tibetano... perguntei de supetão: “Que diabo tem mulher? ”. Ela me fulminou com olhar incompreensível. Depois, apenas disse amuada: mamãe tá preocupada com uma tal de Cunhã!.

Vixe... disse baixinho para mim mesmo: “Aí tem o dedo de Almizão... Melhor ficar ouvindo músicas, pelo restante da viagem!”, matutei na hora. Minha ranger engolia rapidamente o asfalto, naquela insólita viagem...

Fiquei a pensar sobre a vida de meus sogros: quase 50 anos de casados e muitas histórias interessantes para contar. São realmente pessoas do bem, de vida harmônica... isto é...  "menos quando Francinete num tá de calundu!”, deduzi.

Disse somente para mim: “Bem que agente deveria começar o casamento escolhendo os sogros... a mulher e o restante da família vêm no encalço”. E os pensamentos foram me tomando a consciência: “Se o casamento tiver uma ‘bomba’, pelo menos a gente se diverte com os sogros”.

E, como sogro, Almizão é tudo de bom. Simples, metódico, hospitaleiro, ingênuo... enfim, uma alma pura, daquelas que a gente pensa: “Quando morrer, vai direto pro céu, sem parada no purgatório”.

Trabalhador incansável e, mesmo com mais de 70 janeiros, não descansa nem aos domingos. Se tem defeito na vida, é gostar demais do seu sítio... E isso sempre incomodou Francinete, sua mulher: “O homi num vivi sem o diabo dessas vaca besta”, diz sempre.

E os adjetivos que brotam do coração magoado e ciumento de Francinete dão para encher, todinho, o velho Cajazeiras – açude que já foi dos maiores do Piauí e se tornou esgoto a céu aberto.

Além dessas características, Almizão tem uma faceta da personalidade que me fascina muito: “é chegado num exageramento nas coisas que vê... e, principalmente, faz! ”. E se alguém lhe contar uma história curiosa, ele “tasca outra ainda maior”.

Eu mesmo, na hora do almoço, certa vez contei uma façanha vivida na minha possante bike, Aro 29, quando ultrapassei uma moto que trafegava na mesma direção. Aí não deu outra, mal conclui e Almizão emendou sua aventura:

“Quand’eu e Zezim do finado Ontõe do Mulato topemos uma aposta pra vê quem era o melhor corredor de bicicleta do Pio IX... o homi saiu disimbestado de doido... e quand’ele tava a mais de 100 m na frente... eu gritei 'tu é besta cabra véio'... apertei o pé no pedal da minha Gullliver 58... passei do cabra na tubada... era uma tubada tão grande qu’eu nem vi direito quando passei duma moto cum mais de 60 km... “.

A língua me coçou e não resisti: Meu sogro... e como sabe que a moto ia a mais de 60? ”. Almizão arregalou os olhos azuis-piscina e tirou o chapéu de feltro. Percebi os cabelos “em pé”, como se duvidassem da ousadia de minha pergunta. Então, com voz rouca, olhando diretamente em meus olhos, disse: E tu num sabe como corre a moto de dois canos? Pois o cabra ia com a mão topada no acelerador da bichinha!.

Almizão me convenceu. Eu só disse: Ahh... bom! ”. Se já estava admirado com a sua proeza, fiquei abestalhado quando completou a história da ultrapassagem: E foi na subida da Serra Grande... que dá 5 km ladeira arriba!. Aí, pensei na hora: Almizão é o cara!.

Francinete, minha sogra, é uma pessoa caridosa, por demais da conta. Sempre educada, a não ser que esteja zangada com alguma “coisa” que Almizão aprontou. Recebe a mim e aos meus filhos, como ninguém na vida fizera antes.

Na casa do ilustre casal a comida é farta e as regalias são inúmeras. Lá tem um “bejuzim” com queijo coalho e ovo mexido. Tem os bolos de Tia Tetê (uma gorda engraçada que passa parte do dia dormindo e a noite quase toda também... mas, quando acordada, faz umas guloseimas sem igual).

Tem, ainda, a minha rede favorita, sempre armada no terraço. É onde, de noite, contemplo a beleza da lua e das estrelas piscando ao longe (só vistas nos céus de Pio IX)... e de dia, assunto as histórias sobre as façanhas de Almizão... ou ouço os impropérios que Francinete dispara quando o “cabra” sai fora dos trilhos.

Francinete tem uma língua afiada mesmo, isso ninguém pode negar. Suas qualidades, no entanto, superam esse “pequeno defeito de fabricação caseira”. Rezadeira por natureza e convicção, pode ser de manhã, de tarde ou de noite, fica agarrada com Deus e os arcanjos... E à noite, antes e durante a dormida, faz seus agradecimentos e pedidos aos santos de platão.

Francinete não desgruda de proteção divina e do agarramento com a igreja. O povo até diz que é Pra aliviá os pecados... de tanto ela pegá no pé de Almizão.

E o ciúme de Francinete já virou folclore. Todos na cidade sabem de suas histórias. Assim, num raio de 50 km, ninguém desconhece o azedume da mulher, quando desconfia ser traída por Almizão. O ciúme é tão doído, que não escapam nem as galinhas... nem as cabras... e nem as vaquinhas, que Almizão acomoda com carinho no sítio. Se forem fêmeas, todas são amaldiçoadas pela ‘língua’ de Francinete.

Eu, no início, sem entender nada daquele rebuliço todo, assim ‘como quem num quer nada’, perguntei a Almizão: Meu sogro... por que diabos Francinete tem ciúmes das suas crias lá do sítio?.

Almizão... pego de surpresa, arregalou os olhos, coçou a cabeça, deu um pigarro e engoliu o “seco”. Passou uns 3 minutos meditando. Depois me disse algo que nunca esqueci: Francinete endoideceu... pensa que nunca passei dos 20 anos... e inda faço uns servicins com as bichinhas! . Fiquei sem entender nada do que o cabra disse.

E era tiro certeiro: quando Almizão chegava em casa, Francinete pegava suas cuecas e ia lavar lá no fundo da casa. Eu soube depois que é para ver se encontra prova de “crime”. "Pode isso Arnaldo?"... diria Galvão Bueno em seu bordão mais conhecido.

Lembrei-me que, em certa ocasião, desconfiada que “seu homi tava mijando fora do penico”, Francinete planejou trancar Almizão na cisterna.

E somente não realizou seu intento porque foi descoberta a tempo. Deu-se um “falatório danado” na cidade e até o vigário entrou para acabar com aquela loucura.

O pobre de Almizão, coitado... passou a semana inteira dormindo no sofá, com medo da fera. Dizem, por lá, que o homi só dormia com um olho fechado... o outro era arregalado o tempo todo.

Bem... eu estava, ainda, divagando em meus pensamentos “entretentórios”, quando avistei as luzes da cidade. Meus Deus... já é Pio IX!, gritei alegremente.

Imaginei que seria uma entrada triunfal: “Quem sabe com “balões, cartazes e, até, bombinhas de São João? , todos saudando nossa chegada.

Não foi bem assim que aconteceu. Francinete mal nos cumprimentou e deu nos calcanhares para seu quarto. Senti o ambiente fechado e nada amistoso.

Já dentro da casa, perguntei: Cadê... nosso Almizão?. Nisso ouço um GRITO vindo dos aposentos do casal. O BESTA FOI SE INCONTRÁ CUM A TAL CUNHÃ! , era Francinete louca da vida.

Ia entabular outra pergunta, quando vi Tia Tetê levar o indicador aos lábios, recomendando-me silêncio. “Calado fiquei e calado permaneci! ”, percebi que era prudente guardar minhas curiosidades investigativas para outra ocasião.

Bem... já estava há mais de semana na cidade e o clima na casa de meus sogros continuava pesado, como nunca presenciara antes. As pessoas mal se olhavam. Era algo de enlouquecer qualquer ateu, cristão ou atoa.

Francinete... sempre indisposta, embora nos tratasse com cordialidade. Quando não estava em sua farmácia, ficava em seu quarto entocada. Mal comia e corria para os seus aposentos.

Almizão passava o dia em seu sítio... e, às vezes, parte da noite também. Em casa, andava cabisbaixo, nem parecia aquele cidadão cheio de energia e vitalidade que tanto admirava.

Tia Tetê... quando não estava dormindo, era sonhando acordada. Minha esposa, preocupada, estava igual ou pior que na viagem: só me dava bom dia e boa noite, em pensamento. E, nem Zazau Loroteiro (meu cunhado tagarela e contador de causos), aparecia mais por lá. Era realmente um ambiente de fazer dó.

Meus filhos e sobrinhos, com a algazarra típica da idade, eram os únicos responsáveis por criarem um clima mais parecido com família.

Tentei umas 3 ou 4 vezes indagar do que se tratava... Que mistério era aquele da tal Cunhã. Além, de não receber qualquer resposta convincente, ainda, fui solenemente desautorizado a continuar com os meus devaneios investigatórios.

Estava preocupado com a situação e não sabia o que fazer para colaborar. Fiquei imaginando a rotina diária de Almizão: levantava 4 da madrugada, enganava o estômago com uma xícara de café preto e um beiju... dáva três ou quatro dentadas num pedaço de rapadura... e se mandava para o sítio, singrando o sereno da manhã com sua possante moto de 50 cc.

O famoso chapéu de feltro, ao vento, lhe projetava um perfil do paladino Sancho Pança. Ali, no sítio Baixio D’águas, ele entoava seu grito de liberdade. Talvez sejam seus únicos momentos de felicidade... nesses dias, concluí.

Aquilo me incomodava profundamente e já pensava em voltar para Teresina, quando me veio uma luz: Vou convidar Almizão para jogar umas partidas de sinuca... deixo ele ganhar umas, pra se empolgar... encho-lhe o ‘rabo’ de cerveja... aí o homem solta a língua! ”.

Assim, fiz. E meu plano deu certo. Almizão jogando sinuca era um homem feliz. Ganhando de mim, então, mais ainda. Já tinha tomado umas 5 cervejas e me saiu com essa:

Uma vez jogando num campeonato, na disputa final... tava eu e o Bastião do Zé de Deus... ele cum 47 pontos im riba di mim... peguei no taco, passei giz no bichim... e fui metendo as bolas... num errei uma... quando vi, tinha ganhado o jogo... nem acreditei no qu'eu fiz! ”. 

Ouvindo mais essa proeza, pensei no mesmo instante: “NEM EU! “. Percebendo que Almizão já estava no ponto, perguntei-lhe: Quem é essa tal de Cunhã que Francinete está cismada?.

Almizão me olhou dos pés à cabeça e falou bem baixinho: É a minha cobrinha di istimação... uma jibóia! ”.

Fiquei incrédulo, abobalhado mesmo. Pela primeira vez na vida imaginei que Almizão estava mesmo fazendo uma grande besteira... “INCRÍVEL! ”

Cobra de verdade... por que diabo tem uma cobra como animal de estimação?, indaguei-lhe.

E, Almizão, com sua sabedoria popular, respondeu-me espontaneamente: Passei a vida toda lidando cum cobra ferina... e essa bichinha pelo menos num tem veneno! . Fiquei calado... o homem tinha mesmo razão.

No caminho, de volta para casa, não resisti e lhe perguntei: Sogrão... qual é o tamanho dessa Cunhã? .

Almizão, com a voz emocionada, demorou um pouquinho, mas, respondeu: A bichinha é mais ou menos... se esticada toda, num chega a 30 m. Parei o carro abruptamente e fiz a pergunta mais difícil da noite: Como sabe mesmo o tamanho de Cunhã?.

Aí... Almizão contou que, certa vez, estava brincado de pega-pega com Cunhã e ficou escondido por atrás da casa, caladinho, sem se mexer:

Vi... Cunhã se arrastando ligeira, já bem pertim... corri disimbestadu arrudiando a casa... e Cunhã, atrás de mim... tinha dado volta inteira na casa... e Cunhã ia me pegando ... quando a bichinha parou duma vez... foi qui percebi qui tava pisando no rabo dela... ”.

Lembrei-me da velha casa do sítio, mensurei mentalmente o tamanha da sua área coberta e conclui: Almizão tá enganado... 30 m é pouco para o tamanho de Cunhã!

E o tempo foi passando. Já estava quase na hora de voltar para Teresina, férias findando e Francinete continuava emburrada com as idas constantes de Almizão para o sítio.

Era mesmo doído para ela. Mal a moto saia no portão e Francinete resmungava: Já vai incontrá cum sua Cunhã!. Almizão sempre dava o calado por resposta... era mais prudente.

Uma tarde muito calorenta, daquelas que só quem vive por lá conhece de verdade, eu estava matutando em minha rede favorita, bem na frente da garagem da casa.

O ‘vuco-vuco’ do ranger das cordas se atritando com os armadores de ferro, eram absolutamente familiares. Soavam quase como música e me estimulavam os pensamentos.

A nostalgia já me consumia por dentro. Até, há pouco, estava espremendo espinhas no rosto, usando um pequeno espelho de mãos, que pedi emprestado a minha mulher (sem que ela soubesse... é claro!).

Não tinha sido das melhores férias, mas, ainda assim, deixariam saudades. Nisso, ouço o freio espremido da moto de Almizão.

O homem foi entrando rápido... estava com as “butecas dos óios” arregaladas e os “cabelos em pé”, típicos de quem passou por momentos difíceis. E, mais grave... “azunhado dos pés à cabeça”... com a roupa amarrotada e rasgada. Parecia que tinha saído da “Guerra Irã-Iraque”, nos tempos de Saddam Hussein.

Quis passar despercebido por mim, mas, atalhei: Que foi isso... meu sogro? Quem lhe deixou nesse estado? Vamos dá parte à polícia?.

Vendo que não tinha jeito, Almizão olhou para dentro da casa, perguntou nervoso: E... e... e... cadê Francinete?”.

Tranquilizei-o, dizendo que tinha saído para sua farmácia. Somente voltaria bem mais tarde. Senti que Almizão deu um suspiro, aliviado. Pensei imediatamente: Aí... tem!

Sem alternativas, meu sogro foi contando que estava chegando em seu sítio, quando viu a poeira levantar. Olhou na direção do vento e ouviu um rosnado grande... aí correu para ver do que se tratava.

Foi quando percebeu uma onça pintada, enorme, lutando com sua “Cunhã”: E era briga feia... danada! , falou tenso.

Deu um outro grande suspiro:A briga inté tava parêa... mas, Cunhã cumeçou a perdê... vi que a onça tava querendu mordê a cabeça da minha cobra!, contou eufórico.

Confesso que quando Almizão disse aquela frase "vi que a onça tava querendu mordê a cabeça da minha cobra...", aquilo me deu um arrepio e nervoso danado, que fiquei com os "bagos" tremendo. Até hoje,  isso não me sai da cabeça.

Afinal, nem mesmo Francinete tinha tido a suprema ousadia de querer morder a cabeça da cobra de Almizão.

Mas, voltando ao que interessa... eu já estava nervoso, suando frio, doido para saber o final da luta e como Almizão tinha ficado maltratado daquele jeito. Vendo meu suplício, meu sogro continuou a prosa e a despejar sua valentia: 

Num cuntei cunversa... peguei meu facão e cumecei a dar cum as costas na cabeça da onça...quando dei na cabeça dela... a bicha largou minha Cunhã... e veio pra riba de mim..."

Meu sogro deu um longo suspiro, tomou fôlego novamente e disparou a cantinela:  

"...Olhei o tamanho da onça... era uma bicha grandona... mais num sô homi de me assutá... nos atraquemu... aí aconteceu o pió... ela me deu uma azunhada tão doida... mais tão doida... que meu facão caiu perto da mangueira... uns vinte metros dali

Eu já me mijando de angustia e Almizão encompridando aquela "cunversa sem fim". Retruquei: termina logo Almizão

E ele continuou prosando, avexado danado: 

Corri pra mangueira... e a bicha ligeira, foi atrás... num deu tempo eu pegá o facão... então, subi na árvore... olhei pra baixo e o diabo da onça já tava nos meus calcanhar... quanto mais subia, mais perto a bichona ficava... quando dei no sentido, já tava in riba da mangueira... 40 m do chão”.

Eu me segurava para não me mijar e não me borrar também. Era emoção demais, naquela prosa. Foi quando Almizão, emendou:

Cuma num tinha mais pra donde subi... e num sei voá... enfrentei o diabo da onça, no braço mesmo... aí nos atraquemo... viemos embolado de riba a baixo... quando cai no chão, vi que a onça tava tonta... foi só a conta d’eu dá uma gravata no pescoço dela, cum uma mão... e cum a outra, peguei o facão que tava bem pertim... só no ponto de dá o golpe final e matá a bichona!”.

Nesse momento, percebi o pescoço de meu sogro manchado de batom, de um vermelho bem vivo. Então, apontei e perguntei: Almizão... e essas manchas de batom no teu pescoço? . Aí percebi que quem “tava se borrando” era o cabra.

Aproveitei que estava com o espelho de minha mulher dentro da rede (usado quando espremia os cravos, antes de Almizão chegar) e o entreguei ao próprio Almizão.

Ele olhou preocupado o local em seu pescoço. Pelo canto dos olhos, conseguiu ver a mancha enorme de batom... passou os dedos. Ficaram melados... levou-os ao nariz e sentiu o cheiro do cosmético.

Vi Almizão ficar mais pálido, ainda, assentando-lhe os olhos azuis esbugalhados. Temi que fosse desmaiar, tamanho nervosismo. 

Mas, foi somente por um breve instante. Almizão não era de ficar abatido por muito tempo. E, sem que eu esperasse, disse: Homi... deixe de sê avexado... deixa eu terminá minha prosa! ".

Arregalei meus olhos e ouvi Almizão dizer ligeiro:

"... Eu já ia dando uma facada no pescoço da onça, quando vi que a bicha tava melada de medo... me levantei e disse... ‘vai imbora bicha nojenta’... segue seu caminho e deixe minha Cunhã im paz ! .

Fiquei assustado com o desfecho da briga. Foi o tempo necessário para Almizão fazer o arremate final:

“Levantei, limpando as roupas... foi quando a onça me pegou distraído... e agradecida porque não matei ela, a bicha me deu um beijo lascado no cangote... cuma é uma onça pintada, me borrou todim!, disse apontando para a marca de batom, no pescoço. Logo entrou avexado para seu quarto.

Ainda atordoado com aquela última revelação, achei melhor me mandar para a rua e tomar meu açaí, numa lanchonete bem longe de casa.

E, mal cruzei o portão da garagem, me deparei com Francinete esbaforida. A mulher passou por mim como uma “bala”. Nem me cumprimentou.

Bem... do jeito que Francinete entrou em casa, disse a mim mesmo:Isso num vai ficá só nisso... não... de novo! .




GLOSSÁRIO


Amuada: chateada
Assuntei: ouvi
Avexado: nervoso
Arregalada: esbugalhada
Azunhou: marcas de unhas sobre a pele
Bagos: testículos 
Beijo lascado:
beijo forte
Borrou: manchou, sujou
Butecas dos óios: pupila
Cabelos-em-pé: assustado
Calundu: muito chateado, com sentimento negativo
Cangote: pescoço
Disimbestado: velocidade sem controle
Entabular: fazer novamente
Esbaforida: nervosa, tensa
Escabrosa: inacreditável
In riba: em cima
Matutar: pensar
Múmia paralítica: personagem de programa de humor
Parêa: situação de igualdade
Porre: muito chata 
Rebuliço: muvuca
Sorumbática: calada demais
Tagarela: quem fala muito
Tasca outra: diz outra
Tim-tim por tim-tim: contar em detalhes
Tubada: alta velocidade
Antônio Carvalho Neto
Enviado por Antônio Carvalho Neto em 28/03/2018
Alterado em 27/04/2018
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