Antônio Carvalho Neto
De Poesia ninguém morre... se vive!
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Textos



“Isso Num Vai Ficá só Nisso... Não: Almizão, o Filósofo”
 
Início do mês de julho e eu ansioso para estar em Pio IX. Já tinha passado a virada do ano, ido novamente no Carnaval e durante a Semana Santa. Assim, ficar mais quase 20 dias, ali, no meu refúgio predileto...seria um desejo realizado, em pouquíssimo tempo.
 
Como sempre que apareço por lá, levo minha bike. Passear pelas trilhas nos arredores da cidade “é uma delícia!”. Construí amizades consistentes e pedalar com os bikers nativos é muito... muito... muito divertido.
 
Além de tentar colocar o corpo em forma, desopilo a mente cansada da rotina intensa de Teresina. “Paz de Espírito!”, digo constantemente, justificando as idas e vindas àquela cidade tão acolhedora.
 
E, andando na trilha do “Cedro”, em momento de grandíssima inspiração, numa tarde em que presenciei a beleza do sol se pondo, fiz essa reflexão que em mim ecoa repetitivamente:
 
“As pessoas precisam compreender um dos grandes segredos da vida: mesmo o Sol, como fonte inesgotável de energia e calor, todo dia, descansa ao entardecer... a Paz de Espírito é necessária para se viver”.
 
Naquele lugar sagrado, naquele instante sublime, entendi que o Sol ensinou ao homem, que, “Deus lhe deu o descanso” para restaurar suas energias... E, sempre que repito isso, penso em Almizão: meu sogro é dotado de uma sabedoria popular imensurável, digna dos grandes filósofos contemporâneos. CREIO!
 
À guisa de exemplificação, certa vez, matando o calor da tarde quente de Pio IX, estava na minha rede favorita... estendida na garagem da casa de meus sogros. Absorto em meus pensamentos, voltei à realidade com o ranger brusco dos pneus de moto…”ruuuuurrrrrrrrrrrrrrrrrrr!”.
 
Era Almizão, legítimo e único, em carne e osso, chegando do seu sítio “Baixio D’Águas”. Tirou o chapéu de feltro... abriu o portão... entrou com tudo na garagem.
 
Me vendo deitado na rede, Almizão parou e.… com seu linguajar característico, disse a seguinte metáfora: “Andá di costa é caminhá pra trás!”. Isso não me sai da cabeça, até hoje. Naquele momento, no entanto, sem entender nada daquela frase aparentemente tão sem sentido, indaguei: “Por que diz isso?”.
 
Almizão me olhou detidamente, por uns 30 segundos, que me pareceram intermináveis. Imagino que ficou incrédulo com a minha pouca inteligência e percepção para entender a essência das “coisas”.
 
Então, foi me dizendo que a vida proporciona situações em que temos de nos posicionar corretamente. A inteligência e o bom senso, instrumentos para as decisões adequadas. São horas da verdade.

Esclareceu-me que somos produtos das escolhas que fizemos no passado. Confesso ter ficado abismado com aquele “oceano” de sabedoria: “Almizão é o cara!”, murmurei alegremente.
 
Aí... contou que, um comerciante vizinho de sua bodega, lhe propôs uma troca de dois lotes de terreno, por uma moto e vinte vacas. Quando perguntei qual foi a resposta sobre o negócio, Almizão bradou: “E sou besta... Sô? As vaca morre logu... os terreno é pra vida toda!”.
 
Confesso que fiquei ensimesmado com a profundidade daquela frase. Eu, ao longo de toda a existência, jamais havia pensado daquela maneira. Mesmo, considerando os conhecimentos que a vida acadêmica me proporcionaram, estava longe da sabedoria de meu sogro: “Andá di costa é caminhá pra trás!”, decidi que seria mais um mantra em minha vida.

E, os ensinamentos de Almizão não pararam por aí. Outro dia recebi mais um.

Contexto: estava penalizado, porque Pio IX enfrenta uma seca de tirar o sono há muito tempo... lá, basicamente, não chove nos últimos 5 anos. Os reservatórios de água estão em níveis críticos. O velho Cajazeiras, que já foi um dos maiores açudes do Piauí, hoje só existe na lembrança dos mais antigos. Assim, a água é bem de luxo. Vive faltando nas casas.

Por isso, chateado com aquela situação, desabafei: “A merda dessa água da torneira é só um tiquinho... pingando... pingando!"
 
Almizão, passando no momento, olhou-me e não afinou: “Mió pingá... qui secá!”. Fiquei calado, o “homi” tinha razão.
 
E continuou seu corolário de ensinamentos: “Mió u poucu qui é tudu... qui o tudu qui é nada”. Aí quase fui a loucura: era filosofia demais da conta.

E, de fato, eu ficava embasbacado com seus ensinamentos e lições de vida de Almizão. E se já era fã... fiquei devoto. Nos momentos de maior empolgação, pensei criar o 1º Fã-Clube do Almizão... mesmo que eu fosse o único aficionado. “Não abro mão de ser o presidente!”, disse a mim mesmo.

Antevi que essa sabedoria toda, levaria Almizão a lugares nunca imaginado para um nativo de Pio IX:

"Poderia ser estudado em Harvard... na Sorbone... em Frankfurt... MIT... Ohio... ou quem sabe, no Brasil mesmo... na USP... UESPI... ou até na Santo Agostinho!”. Suas ideias e ensinamentos seriam difundidas no mundo todo.

E, no campo das possibilidades, vislumbrei Almizão como um “youtuber”, com milhões de seguidores, mundo afora. Embora, para seu consumo, use sempre um surrado lanterninha e nunca soube o que é o “zap-zap”.

Quando indagado do ‘porque’ não usar smartphone ou um celular mais moderno, diz sabiamente: “Bom... cum esse, ninguém mi enchi u ‘sacu’!”.

Fiquei o observando, atentamente: Almizão era o “símbolo da vitalidade”. Para Francinete, ciumenta da cabeça ao dedão do pé, o “homi” era símbolo de outra coisa... “Num iscapa uma galinha!”, fala a todo instante.

Almizão, nesses momentos, dá o “calado” por resposta. Seu silêncio, quase sempre, desarma a mulher. “É um filósofo... um estrategista”, acredito piamente.

Mas... no fundo, Francinete tem suas razões no ciúme nutrido por Almizão, mesmo considerando exageramento das ideias e atitudes. E, sem querer tomar parte nessas altercações, procuro me manter distante do imbróglio.

Veja-se.… uma vez numa “cunversa de pé-de-oreia”, como se diz por lá, perguntei de supetão: “Almizão... qual é o segredo de tanta energia?”.

Meu sogro pensou um pouco e finalmente desembuchou, compartilhando um segredo guardado há anos: “Meu genru... vô cunfiá in você... lá no sítio, todo dia cedim, mamu nus peitim das vaca!”.

Minha vista escureceu. Fiquei matutando se tinha ouvido direito, quando o cabra disse mais essa: “É só um poquim... num chega a litro e meio!”.

Fiquei abismado mesmo. Embasbacado com aquela revelação. E, sem palavras para mais nada, ouvi Almizão completar a história: “Num vivo sem mamá... peitim de vaca é comu de muié... gostoso qui só vendu, ficu de beiçu lambido!”.

Pensei na hora: “Deus o livre Francinete saber disso!”. Seria filosofia demais para o juízo atabalhoado de minha sogra.

Mas, voltando à viagem: começo da narrativa deste “Causo” ... transcorreu sem nenhuma anormalidade. Ao contrário das últimas férias, agora, minha mulher estava com a língua solta. Falou sobre tudo, até de quem nunca fez nada na vida... e nem a ela em si.
 
É como meu pai sempre dizia “Mulher é assim mesmo... vê coisas onde não existe!”. Bem... eu já me costumara com isso. Confesso achar razoavelmente divertido. Quem não gosta de uma fofoca bem-feita?

Estava há uma semana por lá e tudo na “Santa Paz de Deus”. Era uma tranquilidade enorme. De certa forma, incomodativa para o padrão habitual que sempre testemunho.

Francinete surpreendia: era toda sorrisos e gentilezas. Nem cuspia fogo com as saídas de Almizão para o sítio. Não tinha enxaquecas e nem ficava encastelada em seu quarto.

Soube depois que Cunhã (a cobra de estimação de Almizão) tinha ido embora. Talvez, isso tenha sido uma das causas da paz na casa de meus sogros.


Assim, após o almoço, era comum Francinete tirar uma soneca na sala de tv, antes de ir ao seu comércio. E o “ronco” corria solto... “era coisa de louco”, quando a mulher ligava a turbina dos pulmões à boca escancarada.

Pessoalmente nunca presenciei a “pororoca” do encontro das águas do Amazonas com o Oceano Atlântico. Mas, o “ronco-de-Francinete”, no pós- almoço, imagino ser espetáculo sonoro de igual proporção.

Fala-se que um viajante recém-chegado à Pio IX, hospedado no Mármore Hotel (à cerca de 300 m da casa de meus sogros), acordou assustado ao ouvir o estrondo. Apavorado, de cuecas borradas, o homem saiu gritando na rua: “Valha-me Deus do Céu... o mundo tá se acabando!”.


Eu mesmo passei por uma situação difícil. Isso, na primeira vez em que ouvi: estava cochilando (por volta de uma tarde), quando acordei com aquele estrondo... "Uma coisa de meter medo, JURO!".

Assutado, imaginei que era um supersônico, quebrando a barreira do som nos céus de Pio IX. Depois soube que os vizinhos, incomodados com o "fenômeno", utilizam protetor auricular... produto disputado nas "bodegas" localizadas nas proximidades.

Sobre o comércio de Francinete, lembrei que tinha um nome estranho: “Farmácia Vá com Deus”. Estranho, sim... e sugestivo, também. Na frente é uma drogaria convencional, no fundo, estrategicamente fica um pequeno depósito de caixões de defunto.

Assim, Francinete se gaba da sua esperteza e sabedoria nos negócios. E, numa jogada de marketing genial e pouco ortodoxa, diz sempre: “Pra mim... o cliente em primeiro lugá... si não resolvo o problema na frente... encaminho pra parte de trás”.

Almizão, por sua vez, continuava a ir ao “Baixio das Águas”, seu sítio..., agora, de forma menos intensa. Talvez porque “Cunhã”, sua cobrinha de estimação, tinha escafedido.

O cabra ainda não tinha superado esse momento difícil. "Tristeza de Almizão... júbilo de Francinete", lembrei logo.

Assim, tudo realmente era um oceano de tranquilidade na casa dos meus sogros, até que... Almizão me convidou para jogar sinuca, num domingo de manhã.

Fomos ao Bar do Maluco, na saída da cidade, distante 10 minutos. E, infelizmente aconteceu um fato que quebrou a “Paz de Espírito” reinante em minhas férias, inclusive, abreviando a estadia em Pio IX.

Vamos ao fato em si. Almizão já tinha levado sova na sinuca. Confesso que estava com pena do cabra. Ele nunca gostou de perder, nem em campeonato de arremesso de cuspe, imagine apanhar daquela maneira. Era sova por cima de sova... taca atrás de taca. E logo num jogo que dizia ter sido campeão da cidade várias vezes.
 
Olhei para o relógio e vi que era meio dia – hora de almoço. Senti que Almizão queria ganhar pelo menos “umazinha”. Quanto mais perdia... mais o “homi” não desgrudava o taco. Com a demora, fiquei com medo de chegar em casa e encontrar um clima pesado, pelo atraso no almoço.

Observei o acúmulo de “periguetes” sobre a mesa: Almizão tinha tomado 6 cervejas. A voz (trôpega) denunciava seu estado etílico... prudência, então, quase ZERO. O taco da sinuca não era mais pego com a firmeza de antes. Começou a perder bolas fáceis. Pensei: “Se bom o homi não é páreo... ‘pinguço’ num dá um caldo!”.

Para compensar a sova, Almizão começou a contar suas vantagens costumeiras. Era uma proeza atrás da outra. Até que resolveu ir “tirar água do joelho” no banheiro. E logo que saiu, olhei meu smartphone e identifiquei registradas 7 chamadas de minha mulher. Pensei: “Já devem estar azedas, com nossa demora!”.

Apreensivo, retornei o telefonema. Mal deu o primeiro toque e minha mulher atendeu. Reclamou por cima: “Você está atrasando o almoço e, ainda, arrastou papai junto... mamãe tá uma fera!”.

Nisso, ouço a voz raivosa de Francinete: “Cadê Almizão? Onde está esse cabra?”, disse ao pé do celular. Respondi que tinha ido ao banheiro, mas, voltaria logo.

Tentei desligar o aparelho. Francinete não deixou. Queria falar com o marido de qualquer jeito. Assim, achei por bem deixar o celular ligado e fui “mijar” também. Esse foi o maior pecado que cometi na vida. INFELIZMENTE !!! 


No caminho, encontrei Almizão que já retornava.  Lhe disse: “Meu smartphone está em cima da mesa, ligado... Francinete quer falar contigo!”.

Aí deu-se o problema: não sei se por estar pinguço ou não saber mesmo o que era “smartphone” ... ocorreu uma falha de comunicação. Almizão chegou e se sentou à mesa, bebericando mais uns goles de cerveja.

Eu, no banheiro, inocente, dei uma mijada caprichada e bem demorada... quando voltei nem lembrei do tal smartphone ligado. Chamei meu sogro para ir embora...

Almizão respondeu-me que somente iria, quando terminasse a cerveja que bebia. Começou a cantar com a voz embargada uma música das antigas, de Vicente Celestino... "Tornei-me um ébrio na bebida, busco esquecer... aquela ingrata que eu amava e que me abandonou...".

Sentindo aquele ar nostágico em meu sogro, perguntei-lhe compadecido: "Ainda tem notícias de Cunhã? Tem visto sua cobrinha de estimação?".

Foi só a conta de Almizão desentalar. Começou a “derramar” toda a saudade sentida por Cunhã... e a maldizer Francinete pela fuga de sua cobrinha de estimação.

Lembro de Almizão dizendo: “Cunhã era a minha alegria... quand'eu fazia chamego na cabeça dela... a bichinha crescia... crescia e esticava todinha!”.

E, continuou seus lamentos: “Minha cobrinha num faz mal a ninguém... só faz u bem... num tem venenu... venenu tem é a cobra qui mora cumigu!”.

A conversa foi encompridando. Almizão gastando os adjetivos... o tempo passando... e 'homi' de língua solta: "Buliu cum Cunhã... buliu cumigu!". Essa última frase Almizão repetiu dezenas de vezes.

PS: Posteriormente, se tornou um mantra entre as feministas, num rumoroso caso de assédio sexual em que se envolveu um ator global de grande prestígio.

E, no momento de maior revolta e emoção, meu sogro deu um murro na mesa. Em voz alta, reclamou: “Fiz besteira tê feitu casório cum Francinete... se a muié tivesse aqui agora... ia ouvi tudim qui tá intalado im meu coração!”.

Foi quando ouvi um grito gutural e estridente. Era a própria Francinete, esbaforida, com sangue nos olhos e um pilão nas mãos... que, imediatamente, arremessou contra a cabeça de Almizão:

“Ahhh cabra safadu dus inferno... Vô resolvê teu ‘causo’ é nu fundu da minha farmácia... porque na parti da frente... num tem jeitu qui dê jeitu!”.

Fiquei atônito e sem reação com a fúria de minha sogra. Olhei para o chão e vi Almizão encolhido, debaixo da mesa de sinuca. Ainda deu tempo para ouvir Francinete gritar a plenos pulmões: “Isso Num Vai Ficá...só Nissu... Não!”.

"Mijei de novo"... dessa vez, em minha própria calça!!!
 
 
Post Scriptum


Corre um "buchicho" em Pio IX, divulgado na Rádio Umbuzeiro (local), que tem muita gente boa do RL querendo aderir ao 1º Fã-Clube do Almizão: Trovador das Alterosas, Rosa Alves, Patrícia Justino, Mozaniel Almeida, Aila Brito, Márcio Buriti... Mas, já disse e repito: "Não abro mão de ser o presidente!".

Os personagens do causo são todos criados pela minha imaginação. Assim, qualquer semelhança com fatos, situações ou pessoas, é pura coincidência... E GARANTO QUE SOU INOCENTE !!!
 
Antônio Carvalho Neto
Enviado por Antônio Carvalho Neto em 06/04/2018
Alterado em 27/04/2018
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