Antônio Carvalho Neto
De Poesia ninguém morre... se vive!
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Textos



 Mozá... têm coisas que só acontecem comigo !

 
Tenho grandes amigos na vida. Um deles é o Mozaniel Almeida. Amizade nascida no RL, mas, estendida para o resto de nossas vidas.

O cabra é meu conterrâneo, aqui de Teresina, embora more em Aracaju há muitos anos. Não é poliglota e muito menos troglodita, mas, conta “causos” como poucos... seja pela qualidade do texto ou ainda em virtude do bom-humor marcante.


O Mozá... para os mais íntimos... usa um epíteto diferente, engraçado e sugestivo: “Um Piauiense Armengador de Versos. Assim, é conhecidíssimo e amado no Recanto das Letras.

É um grande intelectual e notável sonetista. Sabe de tudo e mais um pouco sobre qualquer assunto que se converse com ele... e possui uma memória do tamanho de um elefante. Comumente aquilo que sei nas entrelinhas, ele costuma conhecer  em detalhes.


Além de todas essas características, tem algo absolutamente sui generis: seus comentários sobre textos postados no RL, costumam ser melhores do que os próprios escritos, que lhe dão origem. Pelo menos em relação aos meus, “assevero que isso é verdade”.

E, dentre mais de centena de escritos no RL, Mozá criou uma série, cujo título é “Coisas que só acontecem comigo”. São causos divertidos e muitíssimo bem contados, que, ele jura de pés juntos serem verdadeiros. Eu, sinceramente, ACREDITO SEMPRE !!!

Pois bem... o último causo que contou (muito hilário) foi sobre um cidadão que lhe deu um golpe na aquisição de um suposto caixão de defuntos. Quando li o texto, lembrei-me de uma situação ocorrida comigo, que possui verossimilhança. Vou descrevê-la em seguida.

Eu era estudante de economia em Recife. Tinha dezoito anos de idade e morava com conterrâneos em um apartamento alugado, localizado nas imediaçãoes da Universidade Federal de Pernambuco... uma espécie de república de estudantes piauienses.

Estava num momento especialíssimo. Havia passado num vestibular concorridíssimo, com uma das notas mais elevadas. Por conta disso, meu pai fez um sacrifício e me deu um carro ZERO... um Fiat 147 (o auto da moda, naqueles tempos).

Ademais, me destaquei logo entre os colegas de curso, assumindo monitoria em duas disciplinas. 
Esses sucessos efêmeros, conjugados com a pouca idade, fizeram-me muito autoconfiante, com uma soberba lá no teto. Na verdade, olhando tudo, tinha me tornando intragável mesmo.

Meus pais melhoraram minha mesada. Comecei a estagiar num escritório de projetos. Havia feito, ainda, vestibular para Psicologia e Jornalismo... logrando êxito em todos. Enfim, estava me considerando o verdadeiro “31 de fevereiro”.

Eu tinha uma namoradinha em Teresina... que imaginava ser a futura mãe dos meus filhos. Minha primeira e única paixão, até então. Já era algo consolidado. No entanto, engatilhei um namorico com uma colega de classe. E, com ela comecei a conhecer a noite recifense. Essas mudanças fizeram com que meu dinheiro rendesse cada vez menos.

Mesmo a distância,  minha mãe percebeu isso. Alertava sempre para a possibilidade de atrasar compromissos financeiros, especialmente, o aluguel do apartamento.

E de fato... comecei a me descontrolar. Meu dinheiro mal dava para a primeira semana do mês. No restante, tudo era regrado, até mesmo a comida.

Nessa época, não existia celular ou qualquer outra forma de Tecnologia de Informação, muito menos os aplicativos que nos dão todas as informações nos dias atuais. A comunicação com meus pais ocorria, exclusivamente, através do telefone de um apartamento vizinho.

Assim... num mês de abril (véspera de meu aniversário)... estava numa pindaíba daquelas, quando um colega de apartamento veio me cobrar a cota no aluguel. Na realidade, já estava atrasado.

Resolvi, então, deixar o carro na garagem e ir de coletivo até o centro da cidade, numa agência do Banco Nacional S/A (da família Magalhães Pinto), verificar se meu pai tinha depositado a mesada.

Desci do ônibus na Av. Conde da Boa Vista e caminhava apressadamente pela ponte Duarte Coelho. Nisso... vi um garoto tentando subir na mureta e ameaçando se jogar no rio.

Corri e segurei-o pela cintura. Sacudi-o abruptamente: “Que é isso rapaz... que pretende fazer?

Ele chorava copiosamente, dizendo sair de casa, deixando a mãe e dois irmãos menores com fome. Relatou, inclusive, que sua genitora era cadeirante ou algo assim... E tomava remédios controlados, mas, não havia dinheiro para comprá-los.

Fiquei sensibilizado com a história... tanto que meus olhos marejaram. Aí, o cara tirou do bolso uma velha aliança, com um nome de homem gravado. Disse-me que era o único bem da família: símbolo do casamento dos pais.

Perguntou-me se não podia comprá-la, para ajudá-lo. Inicialmente fiquei sem ação e sem ter o que dizer. Passados alguns instantes, dei-lhe o resto de dinheiro que tinha no bolso... não lembro quanto era exatamente, seja em função do tempo decorrido ou das sucessivas mudanças de moedas porque passou o país, desde então.

Aturdido, perguntei-lhe porque não vendia a aliança nos ourives que ficavam numa rua comercial próxima. Era uma região muito conhecida pela pratica da compra de ouro e de objetos derivados. 

Ele retrucou, alegando que, se fosse pessoalmente, poderiam até prendê-lo, como ladrão de produto roubado. E, continuou a chorar convulsivamente.

Não resisti, mesmo já tendo entregue todo o dinheiro que tinha no bolso. Chamei-o para ir ao banco. Lá, após constatar que meu pai havia feito realmente a transferência, saquei o dinheiro (aluguel do meu apartamento) e lhe dei a metade.

Sugeri, eu mesmo vender a aliança, enquanto ele iria comprar o remédio da mãe. Em seguida, nos encontraríamos num lugar previamente marcado. Após a venda, retiraria minha parte e ele ficaria com o resto da grana.


Fui até uma loja especializada. Bom... quando o ourives viu a tal aliança, desatou a rir... dizendo algo assim: "Meu jovem... você é a quinta pessoa que vem aqui essa semana, com a mesma história furada!".

Caminhou até um balcão e veio com um embrulho nas mãos. Mostrou-me uma caixa de sapatos com um punhado de falsas alianças. Fiquei lívido.

A ficha me caiu naquele momento. Entrei em pânico. C
orri de volta ao lugar combinado, com a esperança de que não fosse verdade o que tinha como uma quase certeza... e nada do garoto chorão. Esperei por umas duas horas... 

Fui para casa "puto da vida". De noite, mamãe ligou para o apartamento vizinho. Disse que meu pai havia depositado o dinheiro do aluguel... e que não deixasse de efetuar logo minha parte, para não criar atrito com os parceiros de apartamento.

Ainda muito chateado, contei a história aos colegas, justificando que, mais uma vez, atrasaria minha parte. Ocorreu uma discussão danada e uma troca de acusações sem fim. Ninguém acreditando naquela situação tão inverossímel.


Após, resolvi me recolher ao meu quarto. Numa folha de caderno, escrevi em letras garrafais uma mensagem: "Sou Otário". Preguei na parte externa da porta.

Deitei-me extremamente magoado e abatido. Não consegui dormir nada. Morto de cansaço e numa ressaca moral braba, quando me levantei pela manhã, no mesmo papel pregado na porta, vi que um filho da puta escreveu logo abaixo: "É mesmo!".


 

Post Scriptum


 
Mozá... você foi ingênuo e bem intecionado; eu... um "Otário". Como somos jovens e, ainda, teremos um tempo de vida pela frente, certamente aprenderemos que nem tudo que "Reluz é Ouro!".

 
Antônio Carvalho Neto
Enviado por Antônio Carvalho Neto em 07/04/2018
Alterado em 08/04/2018


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