Antônio Carvalho Neto
De Poesia ninguém morre... se vive!
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Textos





Só dei cabeçada com o CABEÇA DE CUIA !
 

Há alguns dias li um “causo” escrito pelo grande Mozaniel Almeida, cujo epíteto todos já sabem... “Um Piauiense Armengador de Versos”. O texto descrevia uma situação em que o cabra foi enganado por um trambiqueiro na aquisição de um falso caixão de defunto.

A história, bem escrita, motivou-me a relatar um “conto do vigário” que levei de um malandro, nos meus tempos de estudante em Recife. No preâmbulo, fiz uma pequena e justa homenagem ao Mozá. Resultado: recebi felicitações pelo “causo”. Notadamente, em função da “carona” que peguei no seu prestígio de competente e talentoso escriba, com legião de admiradores e Fã-Clubes espalhados pelo Recanto das Letras.

Passados alguns dias, o mesmo Mozá postou outra das suas aventuras e peripécias... Dessa feita, uma história divertidíssima em que foi protagonista e que há uma conexão direta com a lenda mais importante do folclore piauiense: “O Cabeça de Cuia”.

Aí... me recordei que tenho uma historinha vinculada a essa lenda. Lembrei-me, ainda, de uma frase que meu saudoso pai costumava citar, quando as coisas iam bem: “Time que está ganhando, não se mexe!”.

Ora, se a primeira vez deu certo escrever um texto interagindo com o do Mozá, por que não o fazer novamente? Então, tudo o que o cabra postar, me estimula a criar intextualidade. A não ser que o bendito inventasse uma estória, na qual o “Urubu” ganhasse do “Vascão”, numa final de campeonato. Aí não dava mesmo... seria testar e ferir de morte a nossa amizade!  

Portanto, só me resta agradecer essa lambuja... OBRIGADO MEU AMIGO MOZÁ!!!

Como não sou lá muito criativo, os meus “causos” sempre começam assim: “Quando era estudante... e por aí vai”. Esse, não é diferente. E, vou contá-lo “tim-tim por tim-tim”.

Bom... vamos ao relato: quando era estudante secundarista (2º Ano, do antigo Científico), no tradicional Colégio São Francisco de Assis, emTeresina, me dedicava mais aos esportes do que à sala de aula.

Nessa época, cheguei à seleção piauiense de futebol de salão que disputaria os Jogos Esportivos Brasileiros – JEB'S, realizados em Porto Alegre, no ano de 1976.

Por conta de um torneio preparatório, ocorrido em Fortaleza (CE), perdi provas bimestrais de algumas disciplinas, das quais lembro bem: Matemática, OSPB, Educação Moral e Cívica, Física Geral, Eletricidade, Química Geral, Química Orgânica, Português, Redação, Literatura Piauiense, Biologia e Artes.

Por mais incrível que pareça, eu tinha boas notas na maioria das disciplinas. Dessa forma, continuei com médias aprovativas em quase todas, à exceção de Artes. Logo essa que a professora era exigente que nem “vigário de paróquia do interior”. Vira-e-mexe ameaçava me reprovar, por apresentar um certo alheamento nas suas aulas (Na visão dela... e de boa parte da turma, também!).

Já nos aproximávamos dos JEB'S e nada de me recuperar na famigerada disciplina. Como estava mesmo na “pendura”, pairava sobre minha cabeça a noção de ficar em recuperação e não viajar. Suava frio ao pensar naquela possibilidade concreta.

O tempo passava e o desespero aumentava. Foi quando aconteceu um fato que me trouxe perspectiva para mudar o curso dos acontecimentos: o Aniversário do Colégio São Francisco de Assis. E... eu não poderia deixar de aproveitar aquela oportunidade. Isso porque já era uma tradição, naquele educandário: aulas suspensas e uma semana intensa de atividades esportivas e culturais, com uma rica e densa programação.

Eis que, numa aula de Literatura Piauiense, conheci a “Lenda do Cabeça de Cuia” (Vide Post Scriptum). E adorei. Assim, na aula de Redação, fiz um pequeno texto sobre o que tinha entendido daquela estória tão inacreditável.

Por isso, foi absolutamente espontâneo o que aconteceu em seguida. Ao sermos indagados pela professora de Artes, se não iríamos fazer alguma apresentação na Semana do Aniversário do Colégio, propus imediatamente: “Professora... vamos apresentar uma peça sobre o Cabeça de Cuia”. Queria ganhar ponto e me redimir com ela. Era a oportunidade de finalmente recuperar a nota bimestral.

Vi os olhos dela brilharem. Meu coração bateu descompassado. “Era a minha oportunidade de domar a fera!”. Marcamos, então, encontro na sala dos professores para o dia seguinte.

Agendamos duas vezes. Mas, infelizmente não deu certo, por motivos alheios a minha vontade, é claro. Na primeira, cheguei hora e meia atrasado. Ela já tinha assumido outro compromisso.

Na segunda... foi (quase) do mesmo jeito. Com um agravante: a professora ficou “puta da vida” e me deixou um recado bem desaforado. Melhor nem dizer o que ela falou sobre meu suposto descompromisso!!!


O tempo foi passando e eu tentando novamente... até que a finalmente consegui novo agendamento. Dessa vez cheguei bem cedo: “Gato escaldado tem medo de água fresca”, disse a mim mesmo.

Fui temeroso... Mostrei-lhe a redação anteriormente feita por mim. Ela leu com certo entusiasmo, até. Disse-me: “Mas... faltam as falas dos personagens!”.

“E tem isso? Pensei que bastava ler o texto!”. Ali, caiu a minha ficha. Senti que a coisa não era tão simples quanto pensara inicialmente. Bateu-me um desânimo. Quis desistir. Como eu iria criar as falas? Era melhor outro tipo de apresentação. Propus fazermos um musical, com violão.

Ela cortou na hora. “Meu jovem... tem que ser a peça sobre o Cabeça de Cuia... já botei na programação das festividades do colégio... se vire AGORA!”.

Sai de lá tiririca com o rumo dos acontecimentos. Nunca tinha escrito nada na vida, além de algumas poucas redações escolares e uns versinhos do tipo “engana-namorada”. Pensei logo: “Adeus viagem de Porto Alegre... Adeus JEB’S”.

Sem muita convicção, fui à biblioteca. Li alguns textos escassos sobre a lenda proposta (naquela época não havia as facilidades da internet e do Google). Identifiquei todos os personagens e criei as falas para cada cenário imaginado. E, isso tudo foi num tempo curtíssimo. Achei que tinha algum fundamento. Faltava consultar a professora.

Corri ao seu encontro. 
Encontrei-a no corredor. Em algumas folhas de cadernos borradas e amassadas, mostrei o manuscrito. Percebi que a letrinha de médico (horrível!) criava dificuldade para a sua compreensão. Assim, fiquei me chamando de “burro”, por não ter passado a limpo.

Mas, para minha absoluta surpresa, a "fera" fez elogios rasgados e me disse algo que jamais esquecerei: “Antônio Neto... quando você quer fazer algo, tiro o chapéu e as luvas... vá em frente garoto”.

Agora só faltava encontrar colegas que me ajudassem na drmatização. Bom... eu era o interessado maior na história. Aliás, ÚNICO! Tinha que conseguir. Não me restava outra alternativa.

Simplificando: as tratativas não foram tão simples..., mas, coloquei discos de vinil nas negociações e outras “coisitas”, que nem lembro mais quais foram. Enfim, depois de muita conversa, consegui dois rapazes e duas moças da minha classe. Em minha avaliação, o time já estava completo.

No entanto, fiquei com Crispim, o personagem principal. Era de longe o que tinha as maiores falas. Não que eu quisesse... pelo contrário. Eu não tinha na época e não tenho, até hoje, qualquer talento para representar NADA. FUI OBRIGADO!


Treinamos pouquíssimas vezes. Como ninguém tinha segurança sobre as falas (eu principalmente), decidimos fazer algo que considero inusitado em uma apresentação teatral, mesmo que seja feita por estudantes amadores e sem talento: todos representariam seus personagens com os textos em mãos.

E, assim foi. Quando dei por mim, estávamos no auditório com a peça, cujo título foi definido como “Crispim e o Cabeça de Cuia”. Fui o diretor, o roteirista, o coreógrafo, o cenarista e o ator principal... Até a cabeça de cuia, construí com papelão laminado. E nunca tinha feito nada disso!!!

Bom... resumo da ópera (digo: resumo do teatro!) ... ao término das festividades, o eminente diretor do Colégio, Professor Roberto Freitas (intelectual, escritor e ex-seminarista... muito amigo de meu pai), agradeceu a todos pelo compromisso assumido e sucesso obtido em todos os eventos... 

Rindo convulsivamente, terminou sua fala dizendo: “Aprendi muito com a apresentação teatral dos alunos. Inclusive, já conhecia a lenda do Cabeça de Cuia... Mas, imaginava que era um DRAMA e não uma COMÉDIA... E, também não sabia que o Crispim era gago e tinha tremedeira dos pés à cabeça!”.

Consegui viajar para Porto Alegre e disputar os JEB'S. Fomos de ônibus. Uma viagem duríssima: na ida, durou 48 h; mais ou menos o mesmo tempo, no retorno.

Nosso time não fez nada bonito. Perdemos todos os jogos de goleada e fomos desclassificados na primeira fase da competição. Mas, o que me deixou fulo da vida é ter sido apelidado de "Crispim", ao longo de toda a viagem... por pura "sacanagem dos colegas".

 
 
POST SCRIPTUM

 

A "Lenda do Cabeça de Cuia" narra a trágica estória de Crispim - garoto pobre que vivia com a mãe, na região em que hoje se situa o bairro Poty Velho (Teresina), área ribeirinha do Rio Parnaíba, próximo à desembocadura do Rio Poty.

Um dia, Crispim saiu cedinho para pescar. Voltou cansado, com fome e chateado por não conseguir um único peixe.

No almoço, sua mãe lhe serviu apenas “sopinha com ossos”. Nada mais. Era o que tinha em casa. Injuriado, Crispim lhe arremeçou um osso na cabeça. A mãe veio a morrer em consequência da pancada. 

Mas, antes da sua morte, a mulher amaldiçoou Crispim a navegar no rio, sem destino. Sua cabeça se deformaria e ficaria enorme: semelhante a uma cuia, muito utilizada pelos ribeirinhos como vasilhame para transporte e consumo d'água.


Reza a lenda que Crispim permaneceu desorientado, vagando sem parar, dia e noite, até morrer afogado. E que, somente, teria se libertado da praga da mãe, se acaso “comesse” sete virgens com o nome de Maria.

Entre os ribeirinhos, ainda é comum a crença na lenda. Há uma espécie de proibição para que moças virgens, de nome Maria, tomem banho e lavem roupas no Rio Parnaíba ou fiquem saracoteando sozinhas pelas suas margens.

Bom... por muito tempo, não se soube que alguém tenha visto vestígios de Crispim e da sua enorme Cabeça de Cuia. Até que, em Teresina, o nosso Mozá e mais dois amigos se deparassem com o "amaldissoado", boiando numa vazante do Rio Parnaíba, debaixo de pés de "maria mole". A aventura é narrada no causo "Cabeça de Cuia", postado recentemente em sua escrivaninha. LEIAM!

 
Antônio Carvalho Neto
Enviado por Antônio Carvalho Neto em 13/04/2018
Alterado em 27/04/2018
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