Antônio Carvalho Neto
De Poesia ninguém morre... se vive!
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Textos



01 ano sem Belchior... A MPB ficou triste e previsível !
 

Há um ano a música popular brasileira ficou mais pobre e previsível. E a poesia enlutada. Exatamente, em 30 de abril de 2017, na pequenina e distante Santa Cruz do Sul (RS), o Brasil perdia seu mais criativo, inteligente e irrequieto cantor/compositor/poeta... ao lado de Raul Santos Seixas. Aliás, Bel (como era chamado pelos amigos mais próximos) tinha verdadeira idolatria pelo “Maluco Beleza”.

O rompimento da aorta, aos 70 anos, também rompia um total desconhecimento do paradeiro sobre o "poeta do inconformismo e cronista do cotidiano da vida brasileira", o cearense Belchior.


Na verdade, já fazia uma década que, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, havia se afastado do showbusiness e do meio artístico. Se afastou de tudo e de todos, por razões que só ele e sua companheira de aventura (Edna Prometheu) tinham conhecimento.

Fala-se muito num grande amor, unido por um sentimento de auto-preservação contra os valores materiais da sociedade capitalista... no acasalamento de duas utopias. Entendo, porém, que qualquer coisa que se diga sobre o assunto é mera especulação.


Alguns dias antes, eu havia conversado com um colega de trabalho sobre a perspectiva de algo ruim sobre ele. Tinha medo de receber uma notícia fatídica. Talvez, tenha sido tão somente um pressentimento de um fã incondicional, de longo tempo. Afinal, nunca tive habilidades mediúnicas.

Assim, na íntegra, posto novamente o texto, que fiz naquele momento de tristeza e saudade, quando tomei conhecimento do seu falecimento.
 


TEXTO PUBLICADO em 30/04 2017

 
Soube com profunda tristeza, à cerca de 10 minutos, da morte de um dos maiores ícones da MPB... Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, conhecido como Belchior ou para os mais próximos, simplesmente, "Bel".
 
Cearense de Sobral, Belchior tinha 70 anos. Filho de família enorme (23 irmãos), o jovem artista abandonou o curso de Medicina (5º ano), para fazer Filosofia. Dono de forte e irrequieta personalidade, Belchior, sempre surpreendeu amigos e parentes por tomar decisões que fugia ao convencional.
 
E, em mais uma decisão incomum em sua vida, se auto exilou em 2007. Inicialmente, em uma pequena cidade balneária, no Uruguai. Posteriormente, visto perambulando em ruas e viadutos da capital gaúcha.

Reconhecido por um fã, em POA, hospedou-se gratuitamente num apartamento, durante alguns meses. Depois, voluntariamente desapareceu. Estava em companhia de uma mulher identificada pelo nome de Edna Prometheu, por quem supostamente se apaixonara: conhecida no meio artístico por ser antiga produtora musical.

 
Sua última aparição pública foi num show de Tom Zé. Estando na platéia e reconhecido pelo artista baiano, "Bel" é convidado a subir ao palco. Deu uma palinha em duas de suas músicas.
 
Havia deixado tudo para trás (família, imóveis, contratos para shows, dívidas...), inclusive dois carros em estacionamento de hotel. Abandonou shows já agendados, tendo sido processado por seu empresário pelo descumprimento de contratos. Também foi processado por duas ex-mulheres, em função do não pagamento de pensões alimentícias.
 
Em seu atelier, dentre outros objetos pessoais, encontrados pinturas de sua autoria e rascunhos de letras de músicas inéditas e inacabadas.
 
Foi o maior e mais importante letrista de sua geração, lançando discos antológicos como "Alucinação", "Coração Selvagem" e tantos outros, ao longo de extensa carreira. Cantava o cotidiano da sociedade burguesa com tintas melancólicas, adornadas com indisfarçável e fina ironia... "Eu quero que esse canto torto corte a carne de vocês" ou o "Novo sempre vem" ou "Amar e mudar as coisas me interessa mais", numa mensagem transformadora.
 
Suas letras denotam profundo conhecimento da sociedade em que vivia... e, ao mesmo tempo, de inconformismo com suas distorções. Tinha uma visão transformista do mundo... e se espelhava em filósofos contemporâneos e em em agitadores culturais como John Lennon e Bob Dylan.
 
Deixou uma constelação imensa de belíssimas canções, verdadeiros clássicos que embalaram inúmeras gerações: Apenas um Rapaz Latino-Americano, Todo Sujo de Batom, Tudo Outra Vez,Velha Roupa Colorida, Como Nossos Pais, Alucinação, Comentários à Respeito de John, Hora do Almoço, Sujeito de Sorte, Conheço o Meu Lugar, Mucuripe, A Palo Seco, Fotografia 3 x 4, Saia do Meu caminho, Brasileiramente Linda, Coração Selvagem, Paralelas, Divina Comédia Humana, Medo de Avião, Galos Noites e Quintais, Pequeno Perfil de um Cidadão Comum...
 
A letra de "Galos, Noites e Quintais", por sinal, foi feita em Teresina, quando fazia show e estava hospedado no antigo Luxor Hotel do Piauí, defronte ao Parque da Bandeira. Uma área linda, bucólica e arborizada, infelizmente, hoje entregue a vândalos, traficantes e viciados. Confesso que tenho dúvida se foi mesmo essa música ou "Divina Comédia Humana". Mas, o fato é que ele me contou rapidamente a história.

Outra ligação com o Piauí foi através da grande amizade com Jorge Melo, músico natural de Piripiri (PI), de quem foi sócio e parceiro em algumas canções.

 
Em 1996, juntamente com alguns alunos da UESPI, tive o privilégio de trazê-lo para fazer dois belíssimos shows em Teresina. Andei com ele em rádios e emissoras de TV, além de bares e restaurantes. Levei-o a minha casa para conhecer minha mãe e meu pai.
 
Fiquei mais encantado, ainda, com a sua poesia e inteligência em longas e memoráveis conversas. Lembro de, dirigindo meu carro, ouvi-lo declamar de improviso poesias do piauiense Da Costa e Silva, de quem Belchior confessou ser um apaixonado.

Falou-me ser fã incondicional de Raul Seixas, John Lennon, Bob Dylan e da perspectiva de se candidatar, com Gilberto Gil, a deputado federal por São Paulo, pelo recém instalado Partido Verde, com objetivo de engrossar uma bancada voltada para a defesa de interesses ecológicos.

 
Meu último contato pessoal com Belchior foi em Belo Horizonte, em 1998, quando fui assisti-lo na boite "Olímpia", a melhor da época (depois transformada num templo da Igreja Universal do Reino de Deus).
 
Ao visitá-lo no camarim, Belchior estava com seu inseparável cachimbo (marca sua, juntamente com seus longos bigodes, que lhe cobriam inteiramente a parte superior dos lábios). Tomamos vinho e revivemos situações passadas em Teresina. Após, (com amigos que me acompanhavam) fomos convidados para uma esticada na madrugada da capital mineira. Aceitamos voltar para o show da noite seguinte, quando, gentilmente concedeu cortesia de mesa para 4 pessoas. E o fizemos: tivemos nova rodada de alegres conversas despretenciosas.
 
Essa breve convivência com um ídolo me deixou marcas profundas e muito aprendizado... uma frase que Belchior usava muito ao se referir as suas canções ou a de outros colegas da MPB: "A palavra cantada da música brasileira", hoje não me sai da cabeça.
 
E o que falar mais de sua arte? As letras de rara beleza e grande sensibilidade poética o transformaram rapidamente em um dos monstros consagrados e idolatrados, entre os artistas do final do século passado. Foi gravado por muita gente do primeiro time da MPB, como: Roberto Carlos, Elis Regina, Jair Rodrigues, Vanusa, Fagner, Pato Fu, Titãs, Mílton Nascimento e tantos outros.
 
Antes do seu desaparecimento, musicou parte da obra de Carlos Drumond de Andrade e realizou trabalhos de pintura... outra de suas paixões.
 
Para mim, realmente, Belchior "É e Será sempre um grande ídolo e a minha maior referência musical... de longe o mais talentoso letrista brasileiro de todos os tempos". 

O que mais me encantou, ao lado de Raul Seixas, e dos estrangeiros John Lennon e Bob Dylan... coincidentemente, também, referências para o próprio Belchior. "Sua arte é atemporal... Seu legado interminável", costumo dizer sempre que me refiro a ele.

 
Hoje, num outro plano de vida, habita Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes... fica, neste aqui, o legado do mais talentoso artista brasileiro de sua geração... "O rapaz Latino Americano, sem dinheiro no banco... e vindo do interior". Foi-se um irrequieto cronista de seu tempo... restou um mito do tamanho de sua obra e genialidade.
 
Não sou vidente, mas, ultimamente estava pensando muito nele... com receio de notícia como essa. Cheguei a comentar com amigos que gostaria de fazer um texto sobre ele... não dessa maneira... de despedida.
 
Valeu demais... Descanse em paz "Bel". Encante os céus com sua genial poesia!
 
PS: para elaborar este post, não fiz nenhuma pesquisa recente sobre a vida e a obra de Belchior... todo o texto foi construído com a visão e as informações que eu já dispunha anteriormente. Futuramente, espero consiguir escrever algo a altura do que ele representa para mim!
Antônio Carvalho Neto
Enviado por Antônio Carvalho Neto em 30/04/2018
Alterado em 01/05/2018


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